quinta-feira, 18 de junho de 2015

Laudato Si: Francisco, Bonhoeffer, e a natureza trina da criação

Tenho folheado com algum prazer a recente encíclica do papa Francisco, Laudato Si. Ela tem sido altamente politizada por todos os lados da questão ecológica, pelo simples e previsível motivo de que é um documento tão político quanto é religioso. Concordo com o teor da carta, e acho correto que líderes cristãos se posicionem a respeito da ameaça crescente da mudança climática. Não tenho certeza ainda da dimensão do problema (ninguém tem) e não tenho o conhecimento necessário para oferecer quaisquer propostas concretas, mas as sugestões do papa parecem apontar para a direção certa. 

Como protestante não tenho qualquer reverência especial por Jorge Bergoglio enquanto papa; mas como Jorge Bergoglio o teólogo (quase escrevi Jorge Bergoglio o teóglio; valeu, autocorrect), ele tem se mostrado uma figura interessante. Um pedaço, em especial, me fez lembrar de um dos melhores trechos do Discipulado de Bonhoeffer, apesar dos dois textos terem muito pouco a ver um com o outro. Precisei de alguns minutos pra determinar porque minha mente fez a conexão: Francisco e Bonhoeffer exemplificam as ênfases diferentes com as quais católicos e protestantes abordam a teologia da criação. Da encíclica, eis a seção entitulada "A trindade e a relação entre as criaturas":
238. O Pai é a fonte última de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que existe. O Filho, que O reflecte e por Quem tudo foi criado, uniu-Se a esta terra, quando foi formado no seio de Maria. O Espírito, vínculo infinito de amor, está intimamente presente no coração do universo, animando e suscitando novos caminhos. O mundo foi criado pelas três Pessoas como um único princípio divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a própria identidade pessoal. Por isso, "quando, admirados, contemplamos o universo na sua grandeza e beleza, devemos louvar a inteira Trindade". 
239. Para os cristãos, acreditar num Deus único que é comunhão trinitária, leva a pensar que toda a realidade contém em si mesma uma marca propriamente trinitária. São Boaventura chega a dizer que o ser humano, antes do pecado, conseguia descobrir como cada criatura "testemunha que Deus é trino". O reflexo da Trindade podia-se reconhecer na natureza, "quando esse livro não era obscuro para o homem, nem a vista do homem se tinha turvado". Este santo franciscano ensina-nos que toda a criatura traz em si uma estrutura propriamente trinitária, tão real que poderia ser contemplada espontaneamente, se o olhar do ser humano não estivesse limitado, obscurecido e fragilizado. Indica-nos, assim, o desafio de tentar ler a realidade em chave trinitária. 
240. As Pessoas divinas são relações subsistentes; e o mundo, criado segundo o modelo divino, é uma trama de relações. As criaturas tendem para Deus; e é próprio de cada ser vivo tender, por sua vez, para outra realidade, de modo que, no seio do universo, podemos encontrar uma série inumerável de relações constantes que secretamente se entrelaçam. Isto convida-nos não só a admirar os múltiplos vínculos que existem entre as criaturas, mas leva-nos também a descobrir uma chave da nossa própria realização. Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade.
Tenho imensa preguiça de traduzir o que Bonhoeffer escreveu (um aluno inescrupuloso, que permancerá anônimo, surrupiou minha edição brasileira do livro), mas confiram o começo do capítulo 5 de Discipulado, e observem como Bonhoeffer toma a linguagem bíblica de Cristo como mediador entre Deus e homem, e astutamente enxerta o Cristo mediador em todas as relações que o ser humano tem com o universo. Não resisto traduzir apenas um pedacinho:
Pela incarnação Cristo se entrepõe na relação entre o homem e sua vida natural. Não há como voltar atrás, pois Cristo barra o caminho. Ao nos chamar ele nos desligou de toda imediatez com as coisas deste mundo. Ele deseja ser o centro; apenas por sua intermediação todas as coisas virão a ocorrer. Ele está posicionado entre nós e Deus, e por esse mesmo motivo ele está posicionado entre nós e todos os outros homens, e todas as outras coisas. Ele é o mediador, não apenas entre homem e Deus, mas entre homem e homem, entre homem e a realidade. 
 Não direi que há uma brecha radical entre católicos e protestantes quanto ao conteúdo doutrinal da teologia da criação; mas observem as diferenças entre Francisco e Bonhoeffer, observem as ênfases distintas de cada um.

Observem a facilidade com que Francisco acopla uma perspectiva trinitária ao panorama medieval da teologia natural: se Deus é trino, é inevitável que hajam sombras da trindade em cada átomo do universo. Se Deus, o fundamento de todas as coisas, é em sua essência relacional, um Deus em três pessoas, um Deus que é o amor entre Pai, Filho e Espírito Santo, então o amor é também o caráter fundamental de toda a realidade. Francisco parte da interconectividade que há dentro do próprio Deus, e daí conclui que há interconectividade entre todas as partes da criação.

Bonhoeffer, por sua vez, regozija no mais constante dos refrões paulinos: o estar em Cristo. Onde Francisco vê uma interconectividade natural e divina entre todas as coisas, Bonhoeffer vê ruptura, abismo. Todas as coisas estão interligadas, mas o estão apenas porque Cristo as liga. Cristo supera a distância infinita que o mal cria entre as pessoas, entre pessoas e Deus, entre pessoas e o resto da criação, e é em si a única ponte possível pela qual podemos alcançar a realidade tal como ela realmente é: a realidade definida por, centrada em, e sujeita a Deus. Creio que Bonhoeffer concordaria com Francisco, e aceitaria alegremente que toda a criação perpetua a seu modo a natureza de seu Criador; mas Bonhoeffer, bom protestante que é, não se permite esquecer a profundidade do isolamento egocêntrico que o pecado impõe ao mundo. Ecos da trindade podem ser encontrados no mundo; mas não é necessário apenas que abramos nossos olhos para vê-los. Precisamos, ainda mais do que isso, do Cristo mediador que pode nos permitir, antes de mais nada, o mero acesso verdadeiro ao mundo lá fora.

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