segunda-feira, 22 de junho de 2015

Gostar de Shakespeare: Tonico e Tinoco

Um quadrinho que postei num grupo de dicussões ao qual pertenço resultou numa divertida conversa sobre Shakespeare com os amigos Duanne e André. Anotarei nessa postagem, e em mais algumas que virão nos próximos dias, alguns pensamentos que surgiram nessa conversa, e a partir dela, sobre os problemas e prazeres de gostar de Shakespeare. Os textos anteriores dessa série podem ser encontrados aqui e aqui.

Hoje eu ia falar sobre a virtude dos clichês (um velho tema favorito), mas quero responder primeiro a algo que o Duanne escreveu, no qual ele critica minha (ainda não discutida nesse blog) "palestra sobre quais os ângulos corretos para se ler Shakespeare." Se eu fosse reduzir o texto do Duanne a um esboço, acho que ele poderia ser condensado a três pontos:

1) Os positivos de um artista em um aspecto de sua obra (como o poder da palavra em Shakespeare) não desqualificam ou tornam irrelevantes críticas a fraquezas salientes (como as ocasionais tramas fracas ou inacreditáveis- no mau sentido da palavra- de Shakespeare) em sua obra.

2) Os milhares de livros, artigos, cursos universitários, debates e palestras sobre os "clássicos" tem o efeito cumulativo de estabelecer ao redor deles um redoma, um campo de força que os protege das críticas que obras mais recentes, menos prestigiosas, rotineiramente sofrem. Cria-se um consenso forçado, um discurso do 
"esteticamente correto" que automaticamente projeta uma aura de filistinismo ou burrice sobre detratores das obras em questão. Os que lêem "os clássicos", por sua vez, são automaticamente tidos como mais cultos, mais perspicazes, simplesmente como leitores melhores que os demais.

3) Por isso é melhor que o consenso aclamatório sobre os " clássicos" seja ignorado, pelo menos inicialmente. A "blasfêmia" de comparar Shakespeare com Bruce Lee ou Tonico e Tinoco é uma tentativa consciente de abrir uma brecha na barreira crítica na qual os clássicos estão encastelados, e ter com eles um contato pessoal e imediato, um contato que nos permite uma leitura honesta, sem a obrigação de concordar com leitores anteriores, e sem medo de quais sejam as consequências a sua reputação por gostar ou não gostar do que você encontra.

Eu concordo com o Duanne inteiramente nesses três pontos, mas quero somar a eles algumas considerações.

Primeiro, é problemático tomar um aspecto talvez um pouco fraco de uma peça, e a partir dele concluir que: A) o artista é sempre ruim naquele ponto; e B) Portanto, o artista não vale nada. O bafafá ano passado sobre o thoughtcrime do Ira Glass não foi porque ele não gostou da trama de Rei Lear. Foi porque, partindo de sua avaliação negativa da trama de Rei Lear, ele concluiu que "Shakespeare sucks". The Smiths é minha banda favorita; o fato de que eu acho a canção "Meat is Murder" imensamente cretina muda em nada o quanto amo o resto do disco homônimo, ou o quanto ainda acho The Smiths a melhor banda que já ouvi. É possível admitir que a premissa de Rei Lear é bizarra sem sentir a necessidade de jogar toda a peça fora; a própria história de Lear e suas filhas, refletida na relação de Gloucester e seus filhos, com sua dança intricada de agentes confusos tombando pela tempestade escura, não é tão simplória quanto seus críticos acusam. E o poder da linguagem de Shakespeare faz a peça transcender qualquer sinopse de sua trama. Com isso não quero dizer que uma leitura de Rei Lear que não leva em consideração a poesia está errada; mas não acho injusto dizer que tal leitura seria incompleta.

Em segundo lugar, quem me dera houvessem mais comparações Shakespeare/Tonico e Tinoco (ou pra usar os exemplos de um texto anterior) Wagner/Fagner, Ingmar Bergman/Zé do Caixão. Não tenho briga com quem prefere Aviões do Forró aos Beatles, ou Uwe Boll a Abbas Kierostami. Não quero dizer com isso que toda arte é igualmente boa e ótima. Sinto o apelo da famosa frase de Rober Ebert, "Every once in a while, matters of opinion stray over into errors of fact"; como sou absolutamente mal equipado para fazer qualquer análise séria e minunciosa de Shakespeare ou Tonico e Tinoco, tudo o que posso dizer é que subjetivamente sinto que Shakespeare é objetivamente melhor do que Tonico e Tinoco. Mas afirmações contraditórias (e potencialmente controversiais! Nunca se sabe, o lobby toniquitinoquista pode estar escutando!) do tipo são piores que inúteis.

E finalmente, sobre a montanha de caveiras críticas que formam o pedestal dos clássicos, lembro de um dos meus poemas favoritos, "To The Reader" do J. V. Cunningham:
Time will assuage.
Time’s verses bury
Margin and page
In commentary, 
For gloss demands
A gloss annexed
Till busy hands
Blot out the text 
And all’s coherent.
Search in this gloss
No text inherent:
The text was loss. 
The gain is gloss.
Um dia, quando eu estiver com mais apetite pelo humor negro de dissecar um poema que critica a multidão de mãos dissecadoras de poemas, quero voltar ao Cunningham. Por enquanto, só quero notar que as caveiras acadêmicas são uma benção e uma maldição; em minha própria área eu continuamente indico autores que elucidam as profundezas obscuras dos textos bíblicos, de Platão, de Agostinho, de Santo Tomás, de Calvino. Mas há nada mais cansativo do que um aluno ou colega que parece só ter lido o que autor C escreveu sobre autor B que escreveu sobre autor A; não há substituição para a simples leitura solitária de um autor. Se você quer saber o que Paulo escreveu, sim, procure por Wright, e Dunn, e Ridderbos, e Fee; mas não se esqueça também de simplesmente abrir sua Bíblia e ler as cartas de Paulo. Eu dou graças a Deus pela abundância ilimitada de livros, artigos, palestras e seminários sobre Shakespeare, mas dou graças também por tê-lo conhecido antes de encontrar o suporte crítico que hoje me é útil, mas que em um outro tempo talvez dominaria minha leitura.

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