sábado, 20 de junho de 2015

Gostar de Shakespeare - Sétima Série

Um quadrinho que postei num grupo de dicussões ao qual pertenço resultou numa divertida conversa sobre Shakespeare com os amigos Duanne e André. Anotarei nessa postagem, e em mais algumas que virão nos próximos dias, alguns pensamentos que surgiram nessa conversa, e a partir dela, sobre os problemas e prazeres de gostar de Shakespeare. O primeiro texto pode ser encontrado aqui.

Quando eu estava na sétima série, eu e meus irmãos estudavamos numa pequena escola americana em Manaus. Um amigo meu, que estudava na escola americana de manhã, e de tarde estudava numa escola particular muito grande e muito rica, nos convidou para uma feira estudantil que ocorreria por alguns dias em sua escola; uma mescla de feira de ciências e feira cultural na qual alunos exibiriam projetos nas áreas que os interessassem. Com meu amigo ocupado com seu cartaz, e meu irmão perambulando por outros cantos, fui atraído por uma placa anunciando que em breve um grupo de estudantes do ensino médio encenariam Muito Barulho Por Nada, de William Shakespeare. Como eu já tinha visto a obrigatória maquete que explica como erupções vulcânicas acontecem, eu fui assistir a peça, uma mini-adaptação de quarenta minutos, interpretada por adolescentes.

Saí de lá atônito, processando a história. Como Dom João, o bastardo, poderia ser tão gratuitamente cruel? Como Claudio poderia ser tão cego? Que amor Hero não deve ter, para suportar tal humilhação. E como foi bom ver Benedick e Beatrice confessarem seu amor! As poesia de Shakespeare não estava lá; ou se estava, não foi percebida por um menino de 13 anos. Tudo o que vi foi uma história de enganos desmascarados pela verdade; de desgosto mútuo transformado em afeto; de amor perdido, e amor recuperado. Tudo o que vi foi uma história de reconciliação; e há nada que apele de maneira mais tentadora ao coração cristão do que uma boa história de reconciliação.

 Quando cheguei em casa, fui para a biblioteca de meu pai, peguei sua grande coletânea de peças e poemas de Shakespeare, e li a peça. O inglês era arcaico, difícil de acompanhar, mas não difícil demais para um jovem educado por batistas, cuja primeira leitura completa da Bíblia foi na tradução de King James; e afinal, eu já conhecia a história. Percebi as palavras. Não são qualquer parte que eu selecionaria como exemplar hoje, mas para um menino de treze anos elas eram como palavras talhadas em fogo. "Speak low if you speak love." "Thou pure impiety and impious purity. For thee I'll lock up all the gates of love, and on my eyelids shall conjecture hang to turn all beauty into thoughts of harm..." "Oh, that I were a man! I would eat his heart in the market place!" Intrigado, comecei a folhear, buscando pela história com as melhores ilustrações para começar a ler: escolhi A Tempestade. Quando terminei, escolhi Júlio César, Daí pras famosas, das quais eu já tinha ouvido, mas me sentia intimidado: Romeu e Julieta, Macbeth, Hamlet, Rei Lear. Daí voltei pra antiga Roma, sempre um período histórico favorito, e devorei Antônio e Cleopatra e Coriolanus. Comecei a alugar adaptações de Shakespeare na locadora; a primeira, apropriadamente, foi o Much Ado About Nothing do Kenneth Branagh.

Peço perdão pelas memórias tediosas, absolutamente desinteressantes. Mas eu precisava lembrar do meu primeiro contato real com Shakespeare, porque quando o Duanne (troll eterno e amável que ele é) reclamou que eu e o André não o deixavamos "detestar Rei Lear em paz", eu respondi, "Ler Shakespeare pela simples trama é besteira, até porque a maioria das suas tramas ele simplesmente roubou de outros autores. A linguagem é tudo. Ninguém lê ou assiste Macbeth pra ver o que acontece no final." E isso permitiu que Duanne resumisse nosso argumento da seguinte maneira: "Rei Lear é como O Voo do Dragão do Bruce Lee: premissa ridícula, mas as lutas são boas." O que não seria um resumo totalmente injusto...

Exceto que eu havia esquecido daquele menino que assistiu Muito Barulho por Nada  numa sala de aula. Meu primeiro contato com o autor, apaixonante e atropelador, ocorreu, de fato, numa peça com uma premissa ridícula, atuada por alunos do ensino médio. Eu já fui uma daquelas pessoas que, anos depois, eu diria que não existem: eu já li Macbeth ansioso, virando as páginas rapidamente pra descobrir o que acontecia no final. Shakespeare foi meu Bruce Lee, e eu não o amei apesar de seus clichês. Eu o amei por causa de seus clichês.

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