quarta-feira, 17 de junho de 2015

Gostar de Shakespeare - A maldição do cânone

Um quadrinho que postei num grupo de dicussões ao qual pertenço resultou numa divertida conversa sobre Shakespeare com os amigos Duanne e André. Anotarei nessa postagem, e em mais algumas que virão nos próximos dias, alguns pensamentos que surgiram nessa conversa, e a partir dela, sobre os problemas e prazeres de gostar de Shakespeare.

Há poucas pessoas mais irritantes nesse mundo do que os que publicamente e incessantemente proclamam gostar apenas dos "clássicos"; a vaidade, em todo aspecto da vida, sempre causa constrangimento em outros. A pessoa que se gaba de apenas ver filmes estrangeiros, de só ouvir música erudita, de só ler as obras primas da literatura mundial- enfim, a pessoa que publicamente despreza a cultura popular middlebrow e lowbrow- é a equivalente intelectual da modelo amadora que posta quinze selfies por dia no instagram. Não digo isso como um ataque ao genuíno bom gosto; pelo contrário, conheço várias pessoas com um saudável, invejável, e apuradíssimo apetite por aquilo que há de melhor na vida. Mas o homem que automaticamente recita os grandes nomes quando perguntado sobre seus favoritos inevitavelmente provoca uma certa suspeita de desonestidade ou superficialidade. Ele pode ser (embora nem sempre seja) um fã secreto de Fagner que, de boca pra fora, só ouve Wagner; ou ele pode ser (embora nem sempre seja) um eterno prisioneiro do impulso adolescente de buscar e gostar apenas dos artefatos culturais que entraram no cânone: as pessoas espertas oficiais disseram que Cidadão Kane é o melhor filme de todos os tempos, portanto Cidadão Kane precisa ser meu filme favorito.

Porém: os grandes nomes não se tornaram grandes por nada. Cidadão Kane é, de fato, um dos melhores filmes já feitos; Wagner tem, de fato, um poder mágico quase inigualável (o que não significa que Fagner não seja excelente também). O impulso populista de jogar lama nos artistas do passado, de descartá-los como meros "homens brancos mortos", é odioso porque é a imagem inversa do pedantismo juvenil que idolatra os clássicos; o trash é mais "real" do que o artifício trabalhoso da arte bem elaborada, logo Zé do Caixão é melhor- ou pra usar a terminologia de Mordor- mais relevante que Ingmar Bergman. A propósito- talvez ele seja mesmo! Eu prefiro Bergman, mas não descarto Zé do Caixão. O problema está em estabelecer um padrão não-artístico (seja ele baseado na política ou em vaidade pessoal) como critério último da avaliação da arte.

Existem poucos artistas da palavra que amo mais do que Shakespeare, e na minha estima nenhum outro dramaturgo chega perto dele. Nem tudo o que ele escreveu é perfeito, ele consegue ser confuso, ele ama o deus ex machina como ninguém; mas na soma das coisas nenhum autor me deu tanto prazer, tanta complexidade, tanta surpresa, tanta gratidão. Ao mesmo tempo, sinto uma grande timidez, quase uma vergonha, ao dizer isso; talvez por medo de ser confundido com um esnobe, ou com algum caipira que nunca leu nada na vida, mas achou que dizer que gosta de Shakespeare o deixaria com cara de esperto. É uma timidez cretina, paradoxal: é sentir vaidade por não ser vaidoso, o que resulta numa postura interior profundamente feia: "eu gosto dessas obras pelos motivos corretos; já eles..."

E mesmo deixando de lado a ótica da questão, as peças de Shakespeare sempre tiveram seus detratores: inúmeros escritores já fixaram a mira de suas escopetas críticas sobre Shakespeare o machista, Shakespeare o anti-semita, Shakespeare o colonialista. Debates recentes sobre o valor de suas peças, e mais a conversa recente com Duanne e André, me deixaram com algumas perguntas na cabeça, mas a principal é uma cuja resposta ainda me escapa, e uma que quero explorar no futuro próximo: por que eu gosto de Shakespeare? Por que suas palavras tem tanto poder sobre mim?

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