quinta-feira, 11 de junho de 2015

Epicteto

Existem livros que nos instruem por toda a vida, livros que geralmente descobrimos ainda jovens, e aos quais por anos podemos retornar, e sempre encontrar algum conselho, alguma coisa que ignoramos antes, e então nos salta aos olhos com todo o frescor e a força de uma verdade recém-encontrada. As Diatribes e o Enchiridion de Epicteto estão entre poucos livros que tem me acompanhado desde meu tempo na faculdade, e hoje encontrei na internet uma excelente edição do Enchiridion em português, na tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien, que pode ser encontrada aqui

Há algo de severo e prático em Epicteto que me lembra o apóstolo Paulo em seus momentos mais mau humorados, uma sabedoria distante que reduz as dores, as ansiedades, as invejas, as impaciências que correm no sangue a abstrações que podem ser encaixotadas e jogadas fora. Neste aspecto, Epicteto (assim como a maior parte dos outros estoicos) as vezes nem parece ser humano, mas o modo de vida que ele descreve permanece um ideal, algo que talvez com um pouco mais de experiência, um pouco mais de garra, um pouco mais de domínio próprio ainda possa ser alcançado. Alguns trechos:

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As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte – de que ela é terrível – que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideremos outra coisa a causa, senão nós mesmos – isto é: as nossas próprias opiniões. É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

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Jamais, a respeito de coisa alguma, digas: “Eu a perdi”, mas sim: “Eu a restituí”. O filho morreu? Foi restituído. A mulher morreu? Foi restituída. “A propriedade me foi subtraída”, então também foi restituída! “Mas quem a subtraiu é mau!” O que te importa por meio de quem aquele que te dá a pede de volta? Na medida em que ele der, faz uso do mesmo modo de quem cuida das coisas de outrem. Do mesmo modo dos que se instalam em uma hospedaria.

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Lembra que és um ator de uma peça teatral, tal como o quer o autor . Se ele a quiser breve, breve será. Se ele a quiser longa, longa será. Se ele quiser que interpretes o papel de mendigo, é para que interpretes esse papel com talento. se de coxo, de magistrado, de homem comum. Pois isto é teu: interpretar belamente o papel que te é dado – mas escolhê-lo, cabe a outro. 

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Podes ser invencível se não te engajares em lutas nas quais vencer não depende de ti. Ao veres alguém preferido em honras, ou muito poderoso, ou mais estimado, presta atenção para que jamais creias – arrebatado pela representação – que ele seja feliz. Pois se a essência do bem está nas coisas que são encargos nossos, não haverá espaço nem para a inveja, nem para o ciúme. Tu mesmo não irás querer ser nem general, nem prítane ou cônsul, mas homem livre. E o único caminho para isso é desprezar o que não é encargo nosso. 

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Se alguém entregasse teu corpo a quem chegasse, tu te irritarias. E por que entregas teu pensamento a quem quer que apareça, para que, se ele te insultar, teu pensamento se inquiete e se confunda? Não te envergonhas por isso?

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Estes argumentos são inconsistentes: “Eu sou mais rico do que tu, logo sou superior a ti”; “Eu sou mais eloquente do que tu, logo sou superior a ti”. Mas, antes, estes são consistentes: “Eu sou mais rico do que tu, logo minhas posses são maiores do que as tuas”; “Eu sou mais eloquente do que tu, logo minha eloquência é maior do que a tua”. Pois tu não és nem as posses, nem a eloquência.

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Jamais te declares filósofo. Nem, entre os homens comuns, fales frequentemente sobre princípios filosóficos, mas age de acordo com os princípios filosóficos. Por exemplo: em um banquete, não discorras sobre como se deve comer, mas come como se deve. Lembra que Sócrates, em toda parte, punha de lado as demonstrações, de tal modo que os outros o procuravam quando desejavam ser apresentados aos filósofos por ele. E ele os levava! E dessa maneira, sendo desdenhado, ele ia. Com efeito, caso, em meio a homens comuns, uma discussão sobre algum princípio filosófico sobrevenha, silencia ao máximo, pois o perigo de vomitar imediatamente o que não digeriste é grande. E quando alguém te falar que nada sabes e não te morderes, sabe então que começaste a ação. Do mesmo modo que as ovelhas não mostram o quanto comeram, trazendo a forragem ao pastor, mas, tendo digerido internamente o pasto, produzem lã e leite, também tu não mostres os princípios filosóficos aos homens comuns, mas, após tê-los digerido, mostra as ações.

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Postura e caráter do homem vulgar: jamais espera benefício ou dano de si mesmo, mas das coisas exteriores. Postura e caráter do filósofo: espera todo benefício e todo dano de si mesmo. Sinais de quem progride: não recrimina ninguém, não elogia ninguém, não acusa ninguém, não reclama de ninguém. Nada diz sobre si mesmo – como quem é ou o que sabe. Quando, em relação a algo, é entravado ou impedido, recrimina a si mesmo. Se alguém o elogia, se ri de quem o elogia. Se alguém o recrimina, não se defende. Vive como os convalescentes, precavendo-se de mover algum membro que esteja se restabelecendo, antes que se recupere. Retira de si todo o desejo e transfere a repulsa unicamente para as coisas que, entre as que são encargos nossos, são contrárias à natureza. Para tudo, faz uso do impulso amenizado. Se parecer insensato ou ignorante, não se importa. Em suma:
guarda-se atentamente como se fosse um inimigo traiçoeiro.

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Sinto o rosto corar só de ler estes conselhos, e ver o quanto estou longe de viver segundo eles. Deus me ajude.

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