segunda-feira, 11 de maio de 2015

Juízes: Sexo e Violência


Esta é a terceira parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. As anteriores vocês podem encontrar aqui e aqui.

Não sei que reação as palavras "sexo e violência", assim juntas, provocam em vocês. Para mim, enquanto consumidor regular de cultura pop em suas formas não sempre muito respeitáveis (quadrinhos, cinema trash, videogames, etc.), elas trazem ecos de dezenas de propagandas, sejam trailers de filmes ou encartes em gibis, que contém a frase, ou variações dela, como uma promessa entusiástica: yes, nós temos séxiviolência, séxiviolência pra dar e vender. Geralmente o sexo é separado da violência: primeiro um prato cheio de violência, e então um um pouquinho de sexo pra sobremesa. Ocasionalmente, como em alguns filmes de terror, o sexo é misturado com a violência para inserir numa cena aquele toquinho extra de horror e degradação. Em alguns casos, a fusão dos dois é tantas vezes repetida que ela se torna uma piada entre fãs certos filmes; ai do casal, em qualquer filme da série Sexta-Feira 13, que decidir fazer sexo durante seu acampamento, pois Jason é um desmancha-prazeres vigilante e severo.

Resumidamente: as palavras "sexo e violência" são, em nosso entretenimento, uma garantia de que haverão divertimentos perversos. Pensem na maneira sentimental e afetuosa na qual Alex em Laranja Mecânica antecipa "a bit of the old ultra-violence". Violência estilizada, sexo irreal, tudo numa embalagem atrativa.

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Não há este glamour na violência sexualizada do Livro de Juízes, apenas sexo e violência em suas combinações mais horripilantes. Aliás, isto não está certo. Não há "sexo e violência"; em Juízes sexo é violência, porque tudo mais no livro também é violência, e se a própria expressão da vontade divina não escapa dessa categoria, não é o sexo que vai se safar. Observem, por exemplo, duas maneiras em que Juízes sexualiza atos violentos cometidos por mulheres.

A primeira é a maneira em que atos de violência cometidos por mulheres são retratados à luz de seu gênero: a derrota nas mãos de uma mulher seria especialmente humilhante, e os personagens do livro expressam essa humilhação cada vez que ela ocorre. Quando em Juízes 4 Baraque se mostra inseguro de ir contra o general cananeu Sísera, a juíza Débora aceita acompanhá-lo na campanha, mas avisa que, por causa de sua pusilaminidade, ele seria privado da glória de derrotar seu oponente: Sísera morreria nas mãos de uma mulher, uma humilhação tanto para o general cananeu que levará uma estaca na cabeça (e vamos retornar a essa estaca daqui a pouco) quanto para o general israelita que perderá sua principal presa para uma dona de casa. Esta humilhação é afirmada ainda mais explicitamente por Abimeleque; quando, na sua invasão de Tebes, uma mulher acerta sua cabeça com um pedra e racha seu crânio, Abimeleque apressadamente implora que seu escudeiro termine sua vida para que ninguém diga que foi uma mulher que o matou. O fato de que esse detalhe, e as desesperadas últimas palavras de Abimeleque, estejam relatadas (com satisfação marota) no livro nos mostra que sua tentativa de escapar a ignomínia falhou.

A segunda é o modo em que atos de violência cometidos por mulheres são erotizados, e contém um certo elemento de inversão de papéis de gênero. As mulheres perigosas de Juízes destroem os homens sempre com ataques contra sua cabeça: a estaca de Jael na testa de Sísera, a pedra no crânio de Abimeleque, a navalha nos cabelos de Sansão. Todo o simbolismo bíblico que retrata poder masculino sobre família e sociedade em termos do homem ser "a cabeça" não pode salvar as próprias cabeças condenadas desses homens.

Mais do que isso- e me perdoem se estou enxergando coisas no texto que podem não estar lá- não haveria algum subtexto sexual nas ações de Jael e Dalila? Sísera, o grande guerreiro, tem sua cabeça penetrada por um grande símbolo fálico, martelado lá pelas mãos de Jael. Sansão perde sua força depois de dormir no colo de Dalila; após deitar sua cabeça sobre as pernas de nossa anti-heroína filisteia ele se torna literalmente impotente, sem poder. Sei que não estou sozinho nessa leitura; aqui está (novamente) John Milton pra me ajudar, colocando na boca de Sansão o lamento de que:

Softened with pleasure and voluptuous life
At length to lay my head and hallowed pledge
Of all my strength in the lascivious lap      
Of a deceitful Concubine, who shore me,
Like a tame wether, all my precious fleece...

Milton vai mais longe (bem, bem, bem mais longe) do que minha simples analogia de impotência. O enfraquecimento de Sansão é literalmente retratado como um ato de castração, sua vítima reduzida a um bode emasculado, "a tame wether", após deitar o símbolo de toda a sua força no (e não apenas, note, sobre o) "colo lascivo" de Dalila. 

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Mas isso tudo é nada comparado com a violência de homens contra mulheres em Juízes. A filha de Jefté, sacrificada por causa de um voto besta de seu pai, ou forçada a uma vida de isolamento religioso por causa de um voto besta de seu pai.* A pobre e anônima esposa timnita de Sansão, queimada viva junto com seu pai por causa de uma vingança cretina de seu marido contra os filisteus. Mas nada se compara, em termos de puro horror, com a história final do Livro de Juízes, a narrativa da chacina dos benjamitas nas mãos das outras tribos de Israel.

Um levita e sua concubina, passando de viagem por Gibeá, se hospedam na casa de um velho, um efraimita que habitava temporariamente na cidade. Um grupo de homens da região, benjamitas, seguros de que poderiam agredir esses forasteiros sem maiores repercussões, cercam a casa e exigem que o velho entregue seu visitante levita a eles, para que eles possam estuprá-lo. Encontramos por todo o mundo antigo a tática de usar violência sexual para provar dominância sobre figuras mais fracas- soldados derrotados, populações sob ocupação militar, ou como nesse caso e na história dos anjos visitando Sodoma, forasteiros, pessoas sem vínculos com a população local, e portanto pessoas sem defensores na cidade.** O levita covardemente empurra sua concubina para fora e a deixa nas mãos dos benjamitas, e após ser estuprada por eles ela consegue apenas se arrastar de volta para a porta da casa antes de morrer. Ao ver o que havia acontecido, o levita retalha o corpo da infeliz em doze parte, e envia um pedaço para cada uma das tribos, com uma explicação dos acontecimentos e uma exigência: vingança.

Os líderes das outras tribos exigem que os benjamitas entreguem os estupradores e assassinos de Gibeá para que sejam executados; os benjamitas insolentemente se recusam, e a tribo se ajunta em Gibeá para defender os estupradores. Indignados, os homens das outras tribos mataram toda a tribo de Benjamin, salvo seiscentos homens que conseguiram escapar. As tribos então decidem parar com a matança ("as onze tribos de Israel" não tem, afinal, o mesmo charme numerológico que doze), e os sobreviventes deparam-se com um problema: ninguém quer dar suas filhas em casamento para uma tribo cuja maior fama agora é a de ser uma quadrilha de estupradores e defensores de estupradores. Como impedir que a solteirice termine o serviço que a guerra começou? Simples! A vila de Jabes-Gileade se recusou a participar da matança dos benjamitas; como castigo, os homens de Israel exterminam toda a população de Jabes-Gileade exceto as moças virgens, que são entregues aos benjamitas como esposas em Siló. Não haviam moças o suficiente para todos os benjamitas em Jabes-Gileade? Sem problemas! Os benjamitas são autorizados a raptar em Siló quantas mulheres fossem necessárias para que cada um tivesse uma esposa.

A história começa com o estupro de uma mulher. Ela termina com o estupro e casamento forçado de seiscentas. Termina com o massacre de cidades inteiras. O Livro de Juízes já mostrou como mulheres podem ser juízas e assassinas de tiranos; uma mulher pode mudar o rumo da história com uma profecia, uma pedrada na cabeça, um cochilo sobre seu colo. E agora elas são reduzidas não apenas a propriedade- quase toda mulher na civilização levantina e na maior parte das outras do mundo centrado no Mediterrâneo era propriedade de alguém- mas a comodidades, a coisas que podem ser roubadas de suas famílias e entregues livremente a homens que, pouco tempo atrás, todos achavam dignos de morte. 

O Livro de Juízes entende o horror desta situação. A história começa e termina com as mesmas palavras, com o refrão que se repete pelo livro quando se tenta explicar o caos da nação naquele período: "Naqueles dias não havia rei em Israel..." A história da guerra entre Israel e os benjamitas é precedida pela história de Mica e seu sacerdote particular, apesar da história de Mica acontecer séculos antes dos eventos que seguem nos capítulos seguintes. A história de Mica é um prefácio para a narrativa dos estupros e da guerra civil, é posicionada lá para nos dar um gosto do caos, da depravação, da situação moral abjeta de Israel. O livro tira o pé do freio e acelera com toda a velocidade rumo às atrocidades finais; o ritmo crescente dos horrores nos deixa estupefatos, mas torna clara a posição do autor/autores/redator/insira-aqui-seu-termo-preferencial. O que aconteceu com a mulher do levita, com as pessoas inocentes de Benjamin, com as mulheres de Jabes-Gileade e de Siló é indefensável, indesculpável, quase incompreensível.

O que me deixa surpreso é que Juízes, escrito milênios atrás numa das sociedades mais firmemente patriarcais da história, tem um senso mais humano, mais justo, mais indignado para com a tragédia destas mulheres do que os editores modernos de nossas próprias Bíblias. No início de Juízes 20, quando as tribos recebem as partes da concubina assassinada e planejam sua guerra contra os benjamitas, encontramos o seguinte subtítulo inserido pela sapientíssima comissão que preparou a tradução Almeida Revista e Corrigida da Bíblia (edição 2009): "Os israelitas vingam o ultraje feito ao levita."

Uma mulher é lançada nas mãos de um bando de criminosos que a estupram a ponto de provocar sua morte. Seu corpo é dessacrado, mutilado em doze pedaços para servir de convite para uma guerra que resultaria no genocídio de quase todos os benjamitas. E quem é a pessoa ultrajada? Quem é, aos olhos dos nobres biblistas, a verdadeira vítima nessa história?

O mané covarde que a jogou aos lobos. 

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* Intérpretes discordam quanto ao que, exatamente, aconteceu com a filha de Jefté; todos concordam que Jefté foi um besta.
** O que prova a imbecilidade de afirmar que o pecado de Sodoma e Gomorra era homossexualidade. O pecado que trouxe destruição sobre sodomitas e benjamitas não era um apetite sexual gay por anjos e levitas, mas a agressividade maligna e oportunista que leva certos indivíduos a violarem pessoas indefesas simplesmente porque eles podem.

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