domingo, 17 de maio de 2015

Juízes: Mito e Imaginação

Esta é a quarta parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. As partes anteriores podem ser encontradas aqui, aqui, e aqui.

C. S. Lewis tinha uma definição meio ampla e idiossincrática de mito. Um mito não seria tanto uma narrativa que explicasse o mundo, e mais uma história cujo simples esboço, mesmo sem maiores elaborações poéticas, tocasse em algo comum e profundamente verdadeiro ao ser humano. O mito seria uma história com poder inerente, um esqueleto vivo de trama que, muito mais do que as camadas de músculo narrativo, gordura estética e epiderme linguística que poderiam crescer em torno do mito, define sua estrutura e exige do leitor alguma reação.

Um homem desce ao mundo dos mortos para salvar sua amada, e a perde no caminho de volta porque olha para trás. Um dardo de mirtilo atinge o coração de Baldr, e a esperança do mundo está morta. A morte de Osíris é a causa da fertilidade do Egito; sua entronização no mundo dos mortos o coloca na porta de entrada para o pós-vida. Cristo em sua morte e ressurreição encapsula toda perda e toda derrota, mas também toda vitória e todo ganho; entre o Gólgota e o túmulo vazio encontramos toda a história do mundo.

Sim, mitos buscam explicar o mundo, tentam jogar luz sobre as origens e a ordem das coisas; mas elas só funcionam, e só são lembradas por nós até hoje, porque há algo nelas que ressoa em nossos corações. Há algo de espiritualmente verdadeiro em todo mito; sua veracidade histórica é quase um detalhe.

Eu digo "quase" porque creio que vários mitos de fato ocorreram.

O principal exemplo disto é que creio na morte e ressurreição de Cristo; creio que Deus tornou real em fato físico e histórico todos os sussurros míticos que circulavam sobre uma vitória espiritual e abstrata sobre a morte. Como Lewis diria, afirmar que certas histórias na Bíblia são míticas não significa necessariamente postular que elas são historicamente falsas. História bíblica seria entendida então como a encenação concreta de uma variedade de realidades espirituais outrora apenas simbólicas.

A estrutura cíclica da história contada no Livro de Juízes é, nessa interpretação um tanto folgada de mito que Lewis emprega, mítica. A história que o livro conta sobre Israel, continuamente caindo em pecado e continuamente sendo resgatada, pode ser lida como a história de cada ser humano que perde sua inocência e implora por livramento divino. Assim como a cidade da República é um retrato, em escala ampliada, do ideal platônico da alma em equilíbrio, a história de Juízes pode ser lida como um estudo de caso sobre o pecado e suas consequências, e aplicada num nível individual ao leitor.

Eu digo que o livro "pode" ser lido deste modo porque não quero ir longe demais, e cair sem querer numa febre alegorizante. "Pode" não é o mesmo que "deve". Só digo que não estou fechado a este tipo de interpretação, pelo menos em alguns casos.

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Histórias bíblicas são continuamente recontadas na literatura, ganham sempre novas adaptações. O que mantém estas adaptações interessantes, mesmo se já lemos a mesma trama diversas vezes em diferentes recontagens? Eu vejo dois motivos por isso. O primeiro, como mencionado acima, é que mitos possuem um poder todo seu, são sementes inerentemente interessantes que podem, com relativa facilidade, florescer em histórias riquíssimas.

O segundo motivo é que a vasta maioria dos personagens bíblicos são opacos para nós. Eles vivem num mundo tão distante, eles aparecem tão brevemente e somem tão repentinamente que deles possuímos apenas vislumbres. Os melhores autores de adaptações de histórias bíblicas entendem isso, e buscam de algum modo satisfazer nosso apetite bisbilhoteiro por alguma ideia de como essas figuras realmente eram. Eles podem nos apresentar versões inusitadas de personagens bíblicos, reconfigurar as figuras da história de maneiras originais e intrigantes: o Jacó contemplativo de The Son of Laughter, o Davi sardônico de God Knows, o Jesus atormentado de A Última Tentação de Cristo.

Em outras palavras: aceitamos ler dezenas de versões diferentes da mesma história porque, no final das contas, elas nunca são exatamente a mesma história. Os atos dos personagens podem ser os mesmos, mas a vida interior deles é diferente em cada versão. Os personagens são interessantes porque descobrimos e redescobrimos que não os conhecíamos inteiramente; talvez, que não os conhecíamos realmente.

A riqueza da ficção criada a partir da Bíblia nos deve, portanto, alertar que o texto em si não nos oferece muitos detalhes sobre seus personagens. Salvo raros momentos, o texto bíblico não nos dá qualquer ideia do que seus personagens estavam realmente pensando. O que significa que um dos maiores problemas que enfrentamos em nossa leitura da Bíblia é nossa própria imaginação, nosso desejo impulsivo de preencher as lacunas e projetar ideias, estados mentais e motivações sobre as pessoas que encontramos no texto. O aviso dos romancistas é simples mas necessário: tome cuidado para não injetar seus valores e juízos nos personagens.

Quando nos chegamos aos juízes, que são descritos tão brevemente, de quem sabemos tão poucos detalhes, este é um aviso que precisamos recordar a cada palavra.  Os juízes despontam nas páginas da Bíblia como cometas quase rápidos demais para serem rastreados pelo olho humano; eles são monolitos indecifráveis, eles possuem dentro de si um dinamismo que os reduz, apesar de nossos esforços imaginativos, à soma de seus atos registrados. Releio um texto anterior que escrevi sobre os juízes, e me sinto envergonhado por não ter levado isso em conta. Meu amor por personagens fisicamente fracos mas sagazes transforma Eúde, em minha mente, num malandro carismático. Meu desgosto por pessoas que usam força bruta para alcançarem seus fins transforma Sansão num megalomaníaco violento. Débora se transforma numa proto-feminista radical, Jefté se torna um Agamenon paraguaio - mas ainda insisto que ele foi um besta.

Os juízes menores, que são apenas mencionados em punhados de versículos, são ainda mais enigmáticos. Sangar matou seiscentos filisteus com seu aguilhão; o que o livro espera que eu faça com essa informação? Ibzã tinha trinta filhos e trinta filhas; como posso começar a entender um califa oriental que aparece do meio do nada, e some da história imediatamente depois?

Eu li o Livro de Juízes três vezes desde o começo do ano, e cada vez que termino de lê-lo sinto que conheço a história cada vez menos. Quem eram essas pessoas?

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