domingo, 10 de maio de 2015

Juízes: Corpos Obstruídos

Esta é a segunda parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. A primeira você encontra aqui.

 Um aspecto do Livro de Juízes que sempre chamou minha atenção é a maneira em que ele relaciona o corpo com poder e fraqueza, com o uso ou o sofrimento da violência. A maneira mais evidente disso está na atenção única (comparada, pelo menos, com o resto da Bíblia) que Juízes dirige aos corpos de mulheres, seja nas atrocidades sexuais cometidas contra mulheres na parte final do livro, seja na maneira em outras partes em que mulheres invertem o que seria o papel que homens imporiam a elas, assumem o papel "ativo", e dão o troco. Mas esse é um tema pesado demais para uma madrugada gentil; ele certamente será abordado da próxima vez. O que quero fazer hoje é colocar no papel- certo, colocar na tela do computador- alguns pensamentos espalhados sobre como o Livro de Juízes trata da fraqueza e poder do corpo, focando em três partes específicas: a mão esquerda de Eúde, as línguas dos efraimitas, e o cabelo de Sansão.

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A Nova Versão Internacional, em sua tradução de Juízes 3:15, relata:"Novamente os israelitas clamaram ao SENHOR, que lhes deu um libertador chamado Eúde, homem canhoto, filho do benjamita Gera."

Isto não está inteiramente correto. É altamente provável que Eúde fosse, de fato, um homem canhoto; os benjamitas, mais do que qualquer outra tribo de Israel, pareciam ter uma propensão especial para a geração de filhos canhotos. Mas a condição de Eúde não é relatada em termos neutros. O texto de Juízes não descreve Eúde simplesmente como um homem canhoto, mas como um homem "obstruído em sua mão direita." Tal como inúmeras outras culturas antigas, a sociedade israelita parecia identificar o lado direito com habilidade, força, e sabedoria, enquanto o lado esquerdo era identificado com fraqueza, inaptidão, e tolice. A canhotez (canhotice? esquerdinez? sinistromanualidade?) de Eúde é retratada como uma deficiência, uma fraqueza na mão direita que o obriga a usar a mão esquerda. O fato de que Juízes insiste em esclarecer este ponto, em estabelecer antes de mais nada que Eúde usa primariamente sua mão esquerda, nos dá uma noção de como ele será caracterizado.

Eúde é- como se tornaria o clichê para personagens canhotos- ardiloso. Ladino. Gideão pode ser, inicialmente, um rapaz timoroso e inseguro, Jefté um rufião imprudente, Débora uma magistrada piedosa, Sansão um valentão intemperado; mas Eúde é singularmente, maravilhosamente, o juiz malandro. Seu curioso instrumento de homicídio, uma lâmina de pouco menos de meio metro de cumprimento, tem um propósito muito específico: curta demais para ser usada em batalha, longa demais para o uso do assassino convencional, ela é do tamanho perfeito para se enfiar no estômago de um homem morbidamente obeso. Seu assassinato político do rei Eglom de Moabe é narrado de modo deliciosamente tenso, cômico, selvagem. O golpe é desferido, inesperadamente, pela mão esquerda; o canhoto pode alcançar sua arma sem atrair atenção, sem elicitar gritos de socorro de sua vítima até que seja tarde demais. O que aparentava ser a fraqueza de Eúde é revelada como sua maior vantagem. Sua mão esquerda é um sinal de azar, desastre, e má intenção; e ela concretiza toda sua promessa maligna não em Eúde, mas em um gesto rápido e certeiro sobre seu inimigo.. A mão sinistra cumpre seu propósito sinistro. Sua estranha espadinha encontra sua bainha perfeita: as entranhas de um rei.

Peço perdão a todos por meu entusiasmo transparente por essa história. Compartilho com os puritanos um jovial apetite por regicídio.

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Há uma lenda divertida que se conta sobre a Guerra do Paraguai. A senha utilizada para admissão nos campos militares brasileiros seria a frase "Cair no poço não posso". Espiões paraguaios eram detectados- e presumivelmente executados- assim que dissessem, no seu portunhol mais corajoso, "Cair nô pôço nô pôsso."

A versão original dessa história pode ser encontrada em Juízes 12, no conflito entre os homens da região de Gileade, liderados pelo juiz Jefté, e guerreiros de tribo de Efraim. A história nos mostra que o melhor tipo de guerra civil é aquele no o dialeto local de seus conterrâneos inimigos é tão forte que certas palavras se tornam impronunciáveis. Chibolete é a própria definição de uma palavra prosaica: significa a parte de uma espiga que contém grãos. Mas os pobres efaimitas tinham tanta dificuldade em formar o xiado inicial de chibolete quanto os espias paraguaios tinham em pronunciar o "não" português; chibolete se tornava, em suas bocas, sibolete. Cada efraimita que tentasse escapar do cerco imposto por Jefté e seus gileaditas era obrigado a dizer chibolete. Um por um, eles disseram sibolete. E um por um eles foram atravessados por espadas. Suas línguas os traíram.

Esta é uma história edificante e educacional. Ela nos ensina a maneira em que dialetos se tornam idiomas oficiais: é só destruir as pessoas que falam de modo diferente. As pessoas erradas falam do jeito errado. Uma pessoa errada pode ter a mesma aparência que você. Ela pode ter a mesma cultura, a mesma religião, a mesma visão de mundo que você. Ela pode ser parte da mesma nação, ela pode ser filha de Abraão, Isaque e Jacó como você. Mas observe sua pronúncia, suas vogais pré-tônicas, suas oclusivas dentais. Homem nenhum pode domar sua língua; a língua é traiçoeira, e te dirá tudo o que você precisa saber para determinar se alguém é errado ou não, mesmo se ele só lhe dirigiu um "Bom dia."

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Sansão faz parte de uma ordem santa. Sansão é um safado. Sansão é dotado de força sobre-humana. Sansão é um crianção petulante.

Sansão é, de todos os juízes, talvez aquele retratado de maneira mais humana, mais realista, apesar de sua super-força. Sansão é arbitrário, como nós. Sansão é dominado por seus desejos, como nós. Sansão tem grandes ambições, como nós. Mas ele não é como nós. Ele é, de todos os personagens da Bíblia, o que mais parece um super-herói. Apesar de ser, como muitos personagens da Bíblia, um escravo de seus impulsos. Em um aspecto, não há personagem mais distante da realidade humana comum; ele é essencialmente um Hulk israelita. De outro lado, não há personagem mais sentimental e fraco: ele é essencialmente um adolescente emo israelita.

Acho que pela primeira vez entendo porque não gosto de Sansão. Ele é uma combinação quase perfeita de poder e futilidade. Pura potência combinada com puro apetite. Entendo perfeitamente que esse é um desprezo hipócrita: ao final das contas eu não sou melhor que ele. Eu recebi pouco, e fiz quase nada com o que Deus me deu. Ele recebeu muito, e fez menos do que poderia. Ninguém tem o direito de se colocar na situação de outro, e imaginar o que faria ou não faria. Mas ainda assim: a impressão geral que se tem da vida de Sansão é a de desperdício. John Milton, poeta supremo do protestantismo, acertou em cheio no seu Samson Agonistes: Dalila, em comparação com seu paramour, nem pode ser chamada de vilã. Ela é, na pior das hipóteses, uma anti-heroína, a Sansão feminina dos filisteus, exceto que ela cumpriu seu propósito, enquanto Sansão falhou. Qual povo foi melhor servido de campeões? Na história de cada povo, Dalila mereceria ter seu rosto estampado no dinheiro dos filisteus; Sansão tem seu merecido lugar na história israelita: uma embaraçada nota de rodapé.

Minha pedra de tropeço, a causa de meu fascínio e estupefação, é a condição que Deus impõe ao poder de Sansão. Sansão é invencível desde que ninguém corte seu cabelo. Assim que sua pelugem for tosqueada, o poder divino se retrai, e Sansão se torna um mero mortal.

A navalha correndo por entre os cabelos de Sansão. A flecha perfurando o calcanhar de Aquiles. A destruição das múmias dos faraós. O giro para trás da cabeça de Orfeu, ansioso para ver Eurídice. Os dentes de Eva sobre o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Uma ação física destrói uma realidade espiritual.

A história de Sansão nos lembra que não somos puros seres espirituais. Não somos anjos, não somos fantasmas. Somos bípedes, criaturas compostas de células, moléculas, átomos. Em nós o espiritual e o físico, o sobrenatural e a poeira são entrelaçados, são unidos e divididos por simples arranjos materiais. O poder que flui de uma para a outra pode ser interrompida com uma simples tesourada. Não existe, de qualquer maneira que consigamos discernir e separar, uma divisão clara entre o físico e o espiritual.

A história de Sansão é chocante porque quebra o feitiço de Platão, e nos faz despertar para nossos corpos. Nós somos anfíbios, físicos e espirituais, e o favor divino pode repousar sobre o que veriamos como uma mera condição física. O físico é o espiritual, está casado indissoluvelmente com o espiritual. Não possuímos corpos; nós somos nossos corpos. Cada um de nossos dedos é tanto nós mesmos quanto nossa própria alma. Cada uma de nossas unhas. Cada um de nossos cabelos.

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