segunda-feira, 25 de maio de 2015

Juízes: Absalom Rex

Esta é a quinta (e por enquanto a última) parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. Você pode encontrar as partes anteriores aqui, aqui, aqui, e aqui.

Tendo dito isso, o que segue tem quase nada a ver diretamente com o Livro de Juízes. É mais uma consideração sobre a sombra que os juízes projetam sobre o resto da história.

Na medida em que nos aproximamos do final do Livro de Juízes, encontramos repetidas variações sobre a mesma frase: "Naqueles dias não havia rei em Israel." A frase não está lá apenas pra nos dizer quando a história ocorre, mas para oferecer alguma explicação para o caos do período tribal. Israel sofre por falta de um rei. Quando, em 1 Samuel, o povo clama por um rei, é desconcertante ver Deus e Samuel o repreendendo por desejar aquilo que, em tese, é a solução de seus problemas.

Ao lermos o aviso profético de Samuel sobre os males que a monarquia traria a nação, podemos resumir todos os problemas que os reis causariam em dois pontos principais: os reis cobrariam impostos do povo, e os reis levantariam exércitos. Em outras palavras, a monarquia introduziu duas coisas cuja necessidade era óbvia durante todo o período dos juízes: uma governo centralizado e uma política externa unificada e proativa. Seus defeitos podem ser numerosos, mas, em tese, reis podem trazer ordem para Israel. Pense nas mudanças efetuadas por Davi durante seu reinado: a instituição de Jerusalém como capital política e centro religioso da nação, a divisão dos levitas em suas devidas categorias, o posicionamento de Israel como poder regional do levante. Um bom rei pode trazer vitória, crescimento, glória para a nação; um mau rei pode trazer derrota, tirania, infâmia; mas para o bem ou para o mal, eles pelo menos conseguem- em tese- mobilizar a nação para fazer alguma coisa. Os juízes podem ser (salvo raras exceções) homens honrosos e servos de Deus, mas sua mera presença é um sinal de que a nação está em caos; eles foram levantados por Deus justamente para corrigir a desordem, para estabelecer em suas gerações e em suas localidades alguma semelhança de estabilidade, paz, autonomia. Se tudo estivesse bem, nós não os encontrariamos em canto algum da história. Com a chegada dos reis, juízes se tornam desnecessários; o tempo do caos passou, ordem é finalmente estabelecida...

...em tese.

Recentemente, ao reler 2 Samuel em preparação para uma aula, precisei fazer uma pausa para recuperar meu fôlego, esfregar meus olhos. Porque na segunda metade do livro, em pleno período monárquico, nos dias do rei mais famoso de toda a Bíblia, encontrei um portento do caos, um sinal de que retornamos aos dias em que não havia rei em Israel. Encontrei um juiz. Um juiz pernicioso, levantado por Deus para cumprir Seus propósitos terríveis: Absalão.

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Os livros históricos do Antigo Testamento são, em sua interpretação da vida política de Israel, dominados pelos temas interligados de poder e legitimidade. O poder pode ser concebido de muitas formas (carisma pessoal, pura força bruta, sagacidade, o comando de tropas), mas para os livros históricos há uma só fonte de legitimidade, uma só garantia de que um governante tem direito de exercer poder sobre outras pessoas: aprovação divina. Os juízes são levantados por Deus para liderarem o povo em seu momento de maior necessidade; eles não possuem apenas poder extraordinário, mas a permissão divina para utilizá-lo. O mesmo se aplica aos reis de Israel. Saul é ungido por Samuel como sinal de que foi autorizado para governar; quando Saul desagrada a Deus, Davi é ungido pelo mesmo profeta com o mesmo propósito,

Com estas duas unções, poder e legitimidade são divorciados, e postos em tensão um contra o outro: Saul é um homem com poder esmagador, mas sem aprovação divina para reinar; Davi tem o direito divino dos reis... e quase nada mais além disso. Os dois são colocados em lados opostos de uma gangorra, e o inevitável declínio de Saul resulta na ascensão e coroação de Davi. Não importa se Davi é apenas um rapaz Belém-de-Judaense, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindo do interior. Aprovação divina é, nesta história, a nascente do poder político, e tendo ela, Davi tem tudo, mesmo sem sabê-lo.

Um exemplo interessante disso ocorre no capítulo 30 de 1 Samuel. Quando seu bando de mercenários é dispensado da batalha contra Saul pelo rei Aquis, Davi retorna a seu feudo em Ziclague e descobre que sua família, e as famílias de todos os seus homens, foram raptados por um bando amalequita. Parte de seus guerreiros fica em Ziclague, parte acompanha Davi para recuperar suas famílias e seus bens roubados. Quando Davi retorna vitorioso, tendo recuperado tudo o que foi perdido, alguns dos homens que partiram com ele sugerem que como eles tiveram todo o trabalho de lutar contra os amalequitas, os que foram pra batalha deveriam receber todos os espólios que foram recuperados, e os que ficaram em Ziclague deveriam receber de volta apenas suas famílias. Davi se recusa a fazer isso, e declara que os espólios serão divididos igualmente entre todos, tanto os que foram para a batalha quanto os que ficaram para trás guardando o que sobrou de sua bagagem. "Davi fez disso um decreto e uma ordenança para Israel, desde aquele dia até hoje."

Observem o que o livro está nos dizendo. Davi nem está alinhado politicamente a Israel nesse período, ele é um mercenário na folha de pagamento do maior inimigo de Israel. Mas sua autoridade é tal que sua palavra é lei para toda Israel; sua simples resposta a um grupo de guerreiros se torna um estatuto permanente da nação. Davi não sabe ainda, mas enquanto ele corria atrás de escraveiros amalequitas, Saul se jogava, em desespero, contra sua própria espada. Davi, sem saber que é agora o único rei ungido em Israel, já pode fazer decretos reais. Poder e legitimidade são novamente reconciliados; Davi ainda levará anos para se tornar rei sobre toda a nação, mas agora é apenas uma questão de tempo.

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No auge de seu reinado, Davi faz uma coisa terrível: ele toma como amante Batseba, a esposa de um de seus soldados, a engravida, e então provoca a morte do marido traído para que seu erro não seja descoberto. Esta é a linha divisória na história de Davi. Tudo até então foi, no balanço das coisas, positivo para ele; tudo o que ocorrer depois será, no balanço das coisas, catastrófico. Davi e Batseba perdem seu filho, o primeiro de vários filhos de Davi que morreriam jovens. Davi encomenda um censo que provoca a ira de Deus, e resulta na morte de dezenas de milhares. Davi acidentalmente permite que um de seus filhos estupre a própria irmã, e então faz nada quando descobre o que aconteceu. Davi não perde sua legitimidade real inteiramente- Deus não buscou outro rei em potencial para ungir durante sua vida- mas após seu pecado ele nunca mais consegue manusear seu poder adequadamente. Davi se torna um rei capenga, incapaz. E em consequência disso, o caos retorna, encarnado na figura formidável de Absalão. A culminação de todos os eventos do Livro de Juízes é uma guerra civil iniciada por um estupro, levada a cabo por uma nação indignada pela crueldade dos benjamitas. A culminação de todos os eventos dos livros de Samuel é uma guerra civil iniciada por um estupro, levada a cabo por um filho revoltado com a complacência de seu pai perante o estupro de sua irmã.

Como Abimeleque, Absalão pretende tornar-se rei. Como Abimeleque, ele convida seus irmãos para um banquete com intenções fratricidas. Como Sansão, sua glória (e sua eventual derrota) está em seu luxuriante cabelo. Como Sansão, ele incendeia as colheitas de seus vizinhos para chamar-lhes a atenção. Como Eúde, ele é sutil, e um grande ator. Como Débora e os juízes de outrora, ele se posiciona em lugares públicos e recebe a população, pronto para ouvir suas reclamações. E ao ouvir cada reclamação, Absalão clamava, "Ah! Quem me dera ser juiz na terra!"

Absalão não sabe, mas ele já é um juiz, levantado por Deus para humilhar e (mesmo que temporariamente) derrotar o próprio rei ungido do SENHOR. Um juiz maligno, como Abimeleque; um juiz cabeludo e libertino Sansão; mas um juiz vingador, como todos eles. Quando Israel desce ao abismo do caos e da inércia perante o mal, Deus levanta um juiz para corrigir a situação. E quando Davi, o líder e representante do povo, o homem que personifica em si mesmo as honras e contradições de Israel, flerta com esse abismo, Deus escolhe um de seus próprios filhos para usar como seu flagelo.

A monarquia garante nada, não estabelece qualquer paz permanente, não protege o reino de depredações estrangeiras. O rei não pode impedir o caos de consumir sua própria família, que dirá a nação. A lógica deuteronômica prevalece, com os juízes ou sem eles. O ciclo de opressão e livramento continua para além do Livro de Juízes, e estampa todo o Antigo Testamento com seu padrão ensanguentado. O Livro de Juízes não é apenas a história de Israel em suas origens; ela é um resumo antecipatório de tudo o que viria pela frente.

Chega de sangue, chega de guerras civis, chega de juízes. Vamos adiante para tópicos mais felizes.

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