sexta-feira, 8 de maio de 2015

Juízes: Abismo Sobre Abismo

O que segue é a primeira de algumas reflexões sobre o Livro de Juízes, o mais deprimente de todos os livros da Bíblia.

Deparando-me pela primeira vez com a responsabilidade de ensinar uma disciplina sobre a história da Antiga Israel, tentei traduzir em termos compreensíveis ao contexto brasileiro atual o que seria um juiz vetero-testamentário, um shofet como encontramos no Livro de Juízes. Um juiz poderia ser compreendido como uma autoridade cívica, um executor da lei divina da mesma maneira em que os juízes de nossa sociedade determinam casos segundo a nossa lei? Obviamente não. O Livro de Juízes parece estar particularmente desinteressado com qualquer forma de ação jurídica; o juiz mais próximo, na compreensão de nossa cultura, aos juízes bíblicos seria Judge Dredd. Os juízes seriam generais, comandantes de guerreiros israelitas contra invasores externos? No caso de alguns, como Otniel, Gideão ou Jefté, sim. Mas como explicar figuras como Sansão, que aparece como um ogro homicida, lascivo e solitário, e ao fim de sua vida uma espécie de homem-bomba primitivo? Ou Sangar, que desponta em apenas um versículo do livro como um especialista na arte perdida de matar centenas de filisteus armado apenas com um aguilhão? Débora é uma profetisa, uma incitadora de exércitos, mas não uma comandante direta sobre eles. Os juízes seriam libertadores, líderes guerrilheiros contra opressores estrangeiros? Como então explicar Abimeleque, que matou seus setenta irmãos, e tentou se impor sobre Israel como rei? Aqui encontramos, isolado em sua glória nefasta, o juiz-do-mal: o homem que, por não temer a Deus, por não dedicar se ao SENHOR ou ao seu povo, por seu egoísmo, por sua violência, por sua mesquinha vontade-de-poder, acabou definindo para mim o que eram os juízes: os juízes eram caudilhos, figuras na Israel tribal que inspiravam e conduziam os rumos do povo, ora por retórica espiritual, ora por puro poder militar. A analogia mais próxima que encontrei para o contexto brasileiro foi que os juízes eram os coronéis (no estilo mais caricaturalmente nordestino do termo) da Antiga Israel.

O fato de que os coronéis da Antiga Israel são os heróis da história de Juízes nos dá um senso desesperador da situação da nação naquele período.

O Livro de Juízes é estruturado segundo uma lógica teológica precisa e coerente: segundo o pacto feito entre Deus e Israel em Deutronômio, da qual céus e terra são invocadas como testemunhas, se Israel fosse fiel ao SENHOR, ela seria uma nação próspera, abençoada, feliz. Se Israel fosse infiel ao SENHOR, ela seria invadida, oprimida, destruída por dentro e por fora. Céus e terra são testemunhas: se Israel cair em idolatria, maus tempos virão.

Cair em idolatria é exatamente o que Israel faz logo após a morte de Josué. Céus e terra são testemunha: o castigo é certo. E o que se estabelece é um ciclo horrível e redundante, no qual diferentes tribos de Israel- e ocasionalmente a nação inteira- caem em idolatria, colhem em consequência de sua infidelidade invasões e sofrimentos, se arrependem, voltam a Deus, e Deus levanta no meio do povo um juiz que liberta seu povo da invasão externa, re-estabelece o culto ao SENHOR, e governa até sua morte. Após a morte do juiz, o povo volta a adorar deuses estranhos, e o ciclo se repete. De novo, e de novo, e de novo, Até os dias de Eli. Até os dias de Samuel, O ciclo de idolatria-arrependimento-libertação-idolatria é uma constante no Livro de Juízes. Não há livramento permanente; não há resolução para o drama religioso de Israel; só existem resoluções temporárias, breves momentos de cumprimento do pacto deuteronomístico, antes que tudo volte para o tedioso e terrível ciclo. Os próprios juízes se tornam, por fim, agentes na destruição de futuras gerações: o éfode de Gideão se torna objeto de idolatria, seu filho se torna um tirano. Juízes são levantados por Deus. juízes são esquecidos. Tudo volta ao normal. E o normal é o caos.

Marx escreveu que a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa. O Livro de Juízes nos obriga a perguntar: e da terceira vez? E da sétima? E da décima? A leitura deuteronomística dos eventos impõe uma certa ordem, um significado espiritual ao que ocorre: Israel desobedece e é punida; Israel se arrepende, e é livrada. Mas da próxima vez que você tiver algumas horas livres, leia o Livro de Juízes de uma vez só, sem pausas ou interrupções. O efeito do livro sobre a mente é apenas um: caos. Caos sobre caos, abismo sobre abismo, com ocasionais intervenções divinas. A história de Juízes não é uma história feliz. Os personagens que acompanhamos não são sempre- convenhamos, não são uma boa parte das vezes- boas pessoas. O resultado cumulativo de tudo o que os juízes se empenharam para estabelecer não foi livramento, salvação, restauração de Israel ao culto ao SENHOR; o resultado final foi estupro coletivo, guerra civil, e extermínio de populações inteiras. O final feliz do Livro de Juízes nunca chegou. O final dessa história foi a coroação de Saul. Foi a breve era de ouro de Davi e Salomão. Foi- novamente- guerra civil, e divisão agora permanente entre as casas de Israel. Foi invasão e- novamente!- extermínio por invasores estrangeiros. Foi exílio, e dominação externa, e opressão por séculos. Por milênios.

Todo o esforço e toda a luta só terminam com o povo retornando ao que causou seus problemas no primeiro lugar. As únicas constantes são a ira de Deus, e o caos onipresente, que encobre a nação, e amarga até leitores remotos, que acompanham a história milênios depois. 

As palavras finais do livro: "Naqueles dias não havia rei em Israel, e cada um fazia o que era direito aos seus próprios olhos."

O fato de que o Livro de Juízes parece ver a falta de um rei como a raiz dos problemas de Israel nos dá um senso desesperador da situação da nação naquele período.

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