terça-feira, 30 de junho de 2015

De Dã a Berseba (3)

A expressão "de Dã a Berseba", encontrada repetidas vezes na Bíblia, designa toda a extensão territorial de Israel, de Dã ao norte até Berseba no sul, assim como no Brasil se usa a expressão "do Oiapoque ao Chuí". Aqui vão os links a alguns textos (ou vídeos, ou outras coisas) interessantes que encontrei recentemente, arrancados de diversos pontos da internet.

Um texto gracioso do Derval Dasilio sobre a pobreza do monoteísmo tem a Santíssima Trindade. Um trecho: "Um monoteísmo do Filho se tornaria um heroísmo militante, uma exagerada confiança no homem e em nós mesmos, meramente uma obediência ética e um seguimento ético e político sem transcendência e sem permanência na consciência dos homens; uma libertação solitária e precária no tempo e na história da humanidade. Sem o Pai – que está no coração do Filho –, e sem o seu Espírito em nossos próprios corações, não teríamos a experiência incrível da filiação divina, mas apenas um mito e um esforço vão, comparativo aos panteões religiosos e suas divindades antropomórficas."

Zwínglio Rodrigues oferece alguns motivos pelos quais o sínodo de Dort foi um fracasso. Não sei se podemos dizer que o arminianismo "triunfou", exatamente, mas pelo menos ele conseguiu expandir e prosperar apesar das calúnias dos cânones de Dort. A caricatura pelagiana a qual o arminianismo foi reduzido pela má fé de muitos escritores reformados ainda é, infelizmente, a imagem do arminianismo que prevalece em muitos círculos. Queira Deus que novas vozes arminianas continuem se levantando, especialmente no Brasil.

No site da Gabriele Greggersen encontrei, traduzida por William Cruz, a introdução que C. S. Lewis escreveu para uma edição inglesa de A Encarnação do Verbo de Atanásio de Alexandria. O texto é menos uma introdução ao (magnífico) livro de Atanásio, e mais uma reflexão sobre a importância de se ler livros antigos. Um pedaço: "Todas as eras têm sua própria perspectiva. São especialmente boas para enxergar certas verdades e especialmente suscetíveis a cometer certos equívocos. Todos nós, portanto, precisamos dos livros que corrigirão os erros característicos de nossa própria época. E isso quer dizer os livros antigos. Todos os escritores contemporâneos compartilham, em alguma medida, a perspectiva contemporânea – mesmo aqueles, como eu mesmo, que parecem opor-se a elas. Nada me choca mais quando leio as controvérsias de eras passadas do que o fato de que ambos os lados geralmente pressupõem, sem questionar, uma porção de coisas que hoje nós negaríamos completamente. Eles pensavam que estavam de lados completamente opostos, mas na verdade estavam o tempo todo secretamente unidos – unidos um ao outro e contra as eras anteriores e posteriores – por um grande volume de pressupostos."

Bruno Ondei oferece uma palavra asseguradora: não, você não é o único que ficou coçando a cabeça ao ver a nação inteira cair em pranto coletivo pela morte de um cantor do qual você nunca ouviu falar.

Um artigo surpreendente (e muitíssimo bem-vindo) de Russell Moore, da Southern Baptist Convention, contra a bandeira confederada.

O ADVENTO DOS ROBOTRABALHADORES.

Pela milésima vez, especulações quanto ao futuro da Grécia na união europeia. Relacionado: 
"In power, Syriza has discovered the unguessed secret of the Greek state. Without oligarchs, it is inefficient."


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Gostar de Shakespeare: Tonico e Tinoco

Um quadrinho que postei num grupo de dicussões ao qual pertenço resultou numa divertida conversa sobre Shakespeare com os amigos Duanne e André. Anotarei nessa postagem, e em mais algumas que virão nos próximos dias, alguns pensamentos que surgiram nessa conversa, e a partir dela, sobre os problemas e prazeres de gostar de Shakespeare. Os textos anteriores dessa série podem ser encontrados aqui e aqui.

Hoje eu ia falar sobre a virtude dos clichês (um velho tema favorito), mas quero responder primeiro a algo que o Duanne escreveu, no qual ele critica minha (ainda não discutida nesse blog) "palestra sobre quais os ângulos corretos para se ler Shakespeare." Se eu fosse reduzir o texto do Duanne a um esboço, acho que ele poderia ser condensado a três pontos:

1) Os positivos de um artista em um aspecto de sua obra (como o poder da palavra em Shakespeare) não desqualificam ou tornam irrelevantes críticas a fraquezas salientes (como as ocasionais tramas fracas ou inacreditáveis- no mau sentido da palavra- de Shakespeare) em sua obra.

2) Os milhares de livros, artigos, cursos universitários, debates e palestras sobre os "clássicos" tem o efeito cumulativo de estabelecer ao redor deles um redoma, um campo de força que os protege das críticas que obras mais recentes, menos prestigiosas, rotineiramente sofrem. Cria-se um consenso forçado, um discurso do 
"esteticamente correto" que automaticamente projeta uma aura de filistinismo ou burrice sobre detratores das obras em questão. Os que lêem "os clássicos", por sua vez, são automaticamente tidos como mais cultos, mais perspicazes, simplesmente como leitores melhores que os demais.

3) Por isso é melhor que o consenso aclamatório sobre os " clássicos" seja ignorado, pelo menos inicialmente. A "blasfêmia" de comparar Shakespeare com Bruce Lee ou Tonico e Tinoco é uma tentativa consciente de abrir uma brecha na barreira crítica na qual os clássicos estão encastelados, e ter com eles um contato pessoal e imediato, um contato que nos permite uma leitura honesta, sem a obrigação de concordar com leitores anteriores, e sem medo de quais sejam as consequências a sua reputação por gostar ou não gostar do que você encontra.

Eu concordo com o Duanne inteiramente nesses três pontos, mas quero somar a eles algumas considerações.

Primeiro, é problemático tomar um aspecto talvez um pouco fraco de uma peça, e a partir dele concluir que: A) o artista é sempre ruim naquele ponto; e B) Portanto, o artista não vale nada. O bafafá ano passado sobre o thoughtcrime do Ira Glass não foi porque ele não gostou da trama de Rei Lear. Foi porque, partindo de sua avaliação negativa da trama de Rei Lear, ele concluiu que "Shakespeare sucks". The Smiths é minha banda favorita; o fato de que eu acho a canção "Meat is Murder" imensamente cretina muda em nada o quanto amo o resto do disco homônimo, ou o quanto ainda acho The Smiths a melhor banda que já ouvi. É possível admitir que a premissa de Rei Lear é bizarra sem sentir a necessidade de jogar toda a peça fora; a própria história de Lear e suas filhas, refletida na relação de Gloucester e seus filhos, com sua dança intricada de agentes confusos tombando pela tempestade escura, não é tão simplória quanto seus críticos acusam. E o poder da linguagem de Shakespeare faz a peça transcender qualquer sinopse de sua trama. Com isso não quero dizer que uma leitura de Rei Lear que não leva em consideração a poesia está errada; mas não acho injusto dizer que tal leitura seria incompleta.

Em segundo lugar, quem me dera houvessem mais comparações Shakespeare/Tonico e Tinoco (ou pra usar os exemplos de um texto anterior) Wagner/Fagner, Ingmar Bergman/Zé do Caixão. Não tenho briga com quem prefere Aviões do Forró aos Beatles, ou Uwe Boll a Abbas Kierostami. Não quero dizer com isso que toda arte é igualmente boa e ótima. Sinto o apelo da famosa frase de Rober Ebert, "Every once in a while, matters of opinion stray over into errors of fact"; como sou absolutamente mal equipado para fazer qualquer análise séria e minunciosa de Shakespeare ou Tonico e Tinoco, tudo o que posso dizer é que subjetivamente sinto que Shakespeare é objetivamente melhor do que Tonico e Tinoco. Mas afirmações contraditórias (e potencialmente controversiais! Nunca se sabe, o lobby toniquitinoquista pode estar escutando!) do tipo são piores que inúteis.

E finalmente, sobre a montanha de caveiras críticas que formam o pedestal dos clássicos, lembro de um dos meus poemas favoritos, "To The Reader" do J. V. Cunningham:
Time will assuage.
Time’s verses bury
Margin and page
In commentary, 
For gloss demands
A gloss annexed
Till busy hands
Blot out the text 
And all’s coherent.
Search in this gloss
No text inherent:
The text was loss. 
The gain is gloss.
Um dia, quando eu estiver com mais apetite pelo humor negro de dissecar um poema que critica a multidão de mãos dissecadoras de poemas, quero voltar ao Cunningham. Por enquanto, só quero notar que as caveiras acadêmicas são uma benção e uma maldição; em minha própria área eu continuamente indico autores que elucidam as profundezas obscuras dos textos bíblicos, de Platão, de Agostinho, de Santo Tomás, de Calvino. Mas há nada mais cansativo do que um aluno ou colega que parece só ter lido o que autor C escreveu sobre autor B que escreveu sobre autor A; não há substituição para a simples leitura solitária de um autor. Se você quer saber o que Paulo escreveu, sim, procure por Wright, e Dunn, e Ridderbos, e Fee; mas não se esqueça também de simplesmente abrir sua Bíblia e ler as cartas de Paulo. Eu dou graças a Deus pela abundância ilimitada de livros, artigos, palestras e seminários sobre Shakespeare, mas dou graças também por tê-lo conhecido antes de encontrar o suporte crítico que hoje me é útil, mas que em um outro tempo talvez dominaria minha leitura.

sábado, 20 de junho de 2015

Gostar de Shakespeare - Sétima Série

Um quadrinho que postei num grupo de dicussões ao qual pertenço resultou numa divertida conversa sobre Shakespeare com os amigos Duanne e André. Anotarei nessa postagem, e em mais algumas que virão nos próximos dias, alguns pensamentos que surgiram nessa conversa, e a partir dela, sobre os problemas e prazeres de gostar de Shakespeare. O primeiro texto pode ser encontrado aqui.

Quando eu estava na sétima série, eu e meus irmãos estudavamos numa pequena escola americana em Manaus. Um amigo meu, que estudava na escola americana de manhã, e de tarde estudava numa escola particular muito grande e muito rica, nos convidou para uma feira estudantil que ocorreria por alguns dias em sua escola; uma mescla de feira de ciências e feira cultural na qual alunos exibiriam projetos nas áreas que os interessassem. Com meu amigo ocupado com seu cartaz, e meu irmão perambulando por outros cantos, fui atraído por uma placa anunciando que em breve um grupo de estudantes do ensino médio encenariam Muito Barulho Por Nada, de William Shakespeare. Como eu já tinha visto a obrigatória maquete que explica como erupções vulcânicas acontecem, eu fui assistir a peça, uma mini-adaptação de quarenta minutos, interpretada por adolescentes.

Saí de lá atônito, processando a história. Como Dom João, o bastardo, poderia ser tão gratuitamente cruel? Como Claudio poderia ser tão cego? Que amor Hero não deve ter, para suportar tal humilhação. E como foi bom ver Benedick e Beatrice confessarem seu amor! As poesia de Shakespeare não estava lá; ou se estava, não foi percebida por um menino de 13 anos. Tudo o que vi foi uma história de enganos desmascarados pela verdade; de desgosto mútuo transformado em afeto; de amor perdido, e amor recuperado. Tudo o que vi foi uma história de reconciliação; e há nada que apele de maneira mais tentadora ao coração cristão do que uma boa história de reconciliação.

 Quando cheguei em casa, fui para a biblioteca de meu pai, peguei sua grande coletânea de peças e poemas de Shakespeare, e li a peça. O inglês era arcaico, difícil de acompanhar, mas não difícil demais para um jovem educado por batistas, cuja primeira leitura completa da Bíblia foi na tradução de King James; e afinal, eu já conhecia a história. Percebi as palavras. Não são qualquer parte que eu selecionaria como exemplar hoje, mas para um menino de treze anos elas eram como palavras talhadas em fogo. "Speak low if you speak love." "Thou pure impiety and impious purity. For thee I'll lock up all the gates of love, and on my eyelids shall conjecture hang to turn all beauty into thoughts of harm..." "Oh, that I were a man! I would eat his heart in the market place!" Intrigado, comecei a folhear, buscando pela história com as melhores ilustrações para começar a ler: escolhi A Tempestade. Quando terminei, escolhi Júlio César, Daí pras famosas, das quais eu já tinha ouvido, mas me sentia intimidado: Romeu e Julieta, Macbeth, Hamlet, Rei Lear. Daí voltei pra antiga Roma, sempre um período histórico favorito, e devorei Antônio e Cleopatra e Coriolanus. Comecei a alugar adaptações de Shakespeare na locadora; a primeira, apropriadamente, foi o Much Ado About Nothing do Kenneth Branagh.

Peço perdão pelas memórias tediosas, absolutamente desinteressantes. Mas eu precisava lembrar do meu primeiro contato real com Shakespeare, porque quando o Duanne (troll eterno e amável que ele é) reclamou que eu e o André não o deixavamos "detestar Rei Lear em paz", eu respondi, "Ler Shakespeare pela simples trama é besteira, até porque a maioria das suas tramas ele simplesmente roubou de outros autores. A linguagem é tudo. Ninguém lê ou assiste Macbeth pra ver o que acontece no final." E isso permitiu que Duanne resumisse nosso argumento da seguinte maneira: "Rei Lear é como O Voo do Dragão do Bruce Lee: premissa ridícula, mas as lutas são boas." O que não seria um resumo totalmente injusto...

Exceto que eu havia esquecido daquele menino que assistiu Muito Barulho por Nada  numa sala de aula. Meu primeiro contato com o autor, apaixonante e atropelador, ocorreu, de fato, numa peça com uma premissa ridícula, atuada por alunos do ensino médio. Eu já fui uma daquelas pessoas que, anos depois, eu diria que não existem: eu já li Macbeth ansioso, virando as páginas rapidamente pra descobrir o que acontecia no final. Shakespeare foi meu Bruce Lee, e eu não o amei apesar de seus clichês. Eu o amei por causa de seus clichês.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Laudato Si: Francisco, Bonhoeffer, e a natureza trina da criação

Tenho folheado com algum prazer a recente encíclica do papa Francisco, Laudato Si. Ela tem sido altamente politizada por todos os lados da questão ecológica, pelo simples e previsível motivo de que é um documento tão político quanto é religioso. Concordo com o teor da carta, e acho correto que líderes cristãos se posicionem a respeito da ameaça crescente da mudança climática. Não tenho certeza ainda da dimensão do problema (ninguém tem) e não tenho o conhecimento necessário para oferecer quaisquer propostas concretas, mas as sugestões do papa parecem apontar para a direção certa. 

Como protestante não tenho qualquer reverência especial por Jorge Bergoglio enquanto papa; mas como Jorge Bergoglio o teólogo (quase escrevi Jorge Bergoglio o teóglio; valeu, autocorrect), ele tem se mostrado uma figura interessante. Um pedaço, em especial, me fez lembrar de um dos melhores trechos do Discipulado de Bonhoeffer, apesar dos dois textos terem muito pouco a ver um com o outro. Precisei de alguns minutos pra determinar porque minha mente fez a conexão: Francisco e Bonhoeffer exemplificam as ênfases diferentes com as quais católicos e protestantes abordam a teologia da criação. Da encíclica, eis a seção entitulada "A trindade e a relação entre as criaturas":
238. O Pai é a fonte última de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que existe. O Filho, que O reflecte e por Quem tudo foi criado, uniu-Se a esta terra, quando foi formado no seio de Maria. O Espírito, vínculo infinito de amor, está intimamente presente no coração do universo, animando e suscitando novos caminhos. O mundo foi criado pelas três Pessoas como um único princípio divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a própria identidade pessoal. Por isso, "quando, admirados, contemplamos o universo na sua grandeza e beleza, devemos louvar a inteira Trindade". 
239. Para os cristãos, acreditar num Deus único que é comunhão trinitária, leva a pensar que toda a realidade contém em si mesma uma marca propriamente trinitária. São Boaventura chega a dizer que o ser humano, antes do pecado, conseguia descobrir como cada criatura "testemunha que Deus é trino". O reflexo da Trindade podia-se reconhecer na natureza, "quando esse livro não era obscuro para o homem, nem a vista do homem se tinha turvado". Este santo franciscano ensina-nos que toda a criatura traz em si uma estrutura propriamente trinitária, tão real que poderia ser contemplada espontaneamente, se o olhar do ser humano não estivesse limitado, obscurecido e fragilizado. Indica-nos, assim, o desafio de tentar ler a realidade em chave trinitária. 
240. As Pessoas divinas são relações subsistentes; e o mundo, criado segundo o modelo divino, é uma trama de relações. As criaturas tendem para Deus; e é próprio de cada ser vivo tender, por sua vez, para outra realidade, de modo que, no seio do universo, podemos encontrar uma série inumerável de relações constantes que secretamente se entrelaçam. Isto convida-nos não só a admirar os múltiplos vínculos que existem entre as criaturas, mas leva-nos também a descobrir uma chave da nossa própria realização. Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade.
Tenho imensa preguiça de traduzir o que Bonhoeffer escreveu (um aluno inescrupuloso, que permancerá anônimo, surrupiou minha edição brasileira do livro), mas confiram o começo do capítulo 5 de Discipulado, e observem como Bonhoeffer toma a linguagem bíblica de Cristo como mediador entre Deus e homem, e astutamente enxerta o Cristo mediador em todas as relações que o ser humano tem com o universo. Não resisto traduzir apenas um pedacinho:
Pela incarnação Cristo se entrepõe na relação entre o homem e sua vida natural. Não há como voltar atrás, pois Cristo barra o caminho. Ao nos chamar ele nos desligou de toda imediatez com as coisas deste mundo. Ele deseja ser o centro; apenas por sua intermediação todas as coisas virão a ocorrer. Ele está posicionado entre nós e Deus, e por esse mesmo motivo ele está posicionado entre nós e todos os outros homens, e todas as outras coisas. Ele é o mediador, não apenas entre homem e Deus, mas entre homem e homem, entre homem e a realidade. 
 Não direi que há uma brecha radical entre católicos e protestantes quanto ao conteúdo doutrinal da teologia da criação; mas observem as diferenças entre Francisco e Bonhoeffer, observem as ênfases distintas de cada um.

Observem a facilidade com que Francisco acopla uma perspectiva trinitária ao panorama medieval da teologia natural: se Deus é trino, é inevitável que hajam sombras da trindade em cada átomo do universo. Se Deus, o fundamento de todas as coisas, é em sua essência relacional, um Deus em três pessoas, um Deus que é o amor entre Pai, Filho e Espírito Santo, então o amor é também o caráter fundamental de toda a realidade. Francisco parte da interconectividade que há dentro do próprio Deus, e daí conclui que há interconectividade entre todas as partes da criação.

Bonhoeffer, por sua vez, regozija no mais constante dos refrões paulinos: o estar em Cristo. Onde Francisco vê uma interconectividade natural e divina entre todas as coisas, Bonhoeffer vê ruptura, abismo. Todas as coisas estão interligadas, mas o estão apenas porque Cristo as liga. Cristo supera a distância infinita que o mal cria entre as pessoas, entre pessoas e Deus, entre pessoas e o resto da criação, e é em si a única ponte possível pela qual podemos alcançar a realidade tal como ela realmente é: a realidade definida por, centrada em, e sujeita a Deus. Creio que Bonhoeffer concordaria com Francisco, e aceitaria alegremente que toda a criação perpetua a seu modo a natureza de seu Criador; mas Bonhoeffer, bom protestante que é, não se permite esquecer a profundidade do isolamento egocêntrico que o pecado impõe ao mundo. Ecos da trindade podem ser encontrados no mundo; mas não é necessário apenas que abramos nossos olhos para vê-los. Precisamos, ainda mais do que isso, do Cristo mediador que pode nos permitir, antes de mais nada, o mero acesso verdadeiro ao mundo lá fora.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Gostar de Shakespeare - A maldição do cânone

Um quadrinho que postei num grupo de dicussões ao qual pertenço resultou numa divertida conversa sobre Shakespeare com os amigos Duanne e André. Anotarei nessa postagem, e em mais algumas que virão nos próximos dias, alguns pensamentos que surgiram nessa conversa, e a partir dela, sobre os problemas e prazeres de gostar de Shakespeare.

Há poucas pessoas mais irritantes nesse mundo do que os que publicamente e incessantemente proclamam gostar apenas dos "clássicos"; a vaidade, em todo aspecto da vida, sempre causa constrangimento em outros. A pessoa que se gaba de apenas ver filmes estrangeiros, de só ouvir música erudita, de só ler as obras primas da literatura mundial- enfim, a pessoa que publicamente despreza a cultura popular middlebrow e lowbrow- é a equivalente intelectual da modelo amadora que posta quinze selfies por dia no instagram. Não digo isso como um ataque ao genuíno bom gosto; pelo contrário, conheço várias pessoas com um saudável, invejável, e apuradíssimo apetite por aquilo que há de melhor na vida. Mas o homem que automaticamente recita os grandes nomes quando perguntado sobre seus favoritos inevitavelmente provoca uma certa suspeita de desonestidade ou superficialidade. Ele pode ser (embora nem sempre seja) um fã secreto de Fagner que, de boca pra fora, só ouve Wagner; ou ele pode ser (embora nem sempre seja) um eterno prisioneiro do impulso adolescente de buscar e gostar apenas dos artefatos culturais que entraram no cânone: as pessoas espertas oficiais disseram que Cidadão Kane é o melhor filme de todos os tempos, portanto Cidadão Kane precisa ser meu filme favorito.

Porém: os grandes nomes não se tornaram grandes por nada. Cidadão Kane é, de fato, um dos melhores filmes já feitos; Wagner tem, de fato, um poder mágico quase inigualável (o que não significa que Fagner não seja excelente também). O impulso populista de jogar lama nos artistas do passado, de descartá-los como meros "homens brancos mortos", é odioso porque é a imagem inversa do pedantismo juvenil que idolatra os clássicos; o trash é mais "real" do que o artifício trabalhoso da arte bem elaborada, logo Zé do Caixão é melhor- ou pra usar a terminologia de Mordor- mais relevante que Ingmar Bergman. A propósito- talvez ele seja mesmo! Eu prefiro Bergman, mas não descarto Zé do Caixão. O problema está em estabelecer um padrão não-artístico (seja ele baseado na política ou em vaidade pessoal) como critério último da avaliação da arte.

Existem poucos artistas da palavra que amo mais do que Shakespeare, e na minha estima nenhum outro dramaturgo chega perto dele. Nem tudo o que ele escreveu é perfeito, ele consegue ser confuso, ele ama o deus ex machina como ninguém; mas na soma das coisas nenhum autor me deu tanto prazer, tanta complexidade, tanta surpresa, tanta gratidão. Ao mesmo tempo, sinto uma grande timidez, quase uma vergonha, ao dizer isso; talvez por medo de ser confundido com um esnobe, ou com algum caipira que nunca leu nada na vida, mas achou que dizer que gosta de Shakespeare o deixaria com cara de esperto. É uma timidez cretina, paradoxal: é sentir vaidade por não ser vaidoso, o que resulta numa postura interior profundamente feia: "eu gosto dessas obras pelos motivos corretos; já eles..."

E mesmo deixando de lado a ótica da questão, as peças de Shakespeare sempre tiveram seus detratores: inúmeros escritores já fixaram a mira de suas escopetas críticas sobre Shakespeare o machista, Shakespeare o anti-semita, Shakespeare o colonialista. Debates recentes sobre o valor de suas peças, e mais a conversa recente com Duanne e André, me deixaram com algumas perguntas na cabeça, mas a principal é uma cuja resposta ainda me escapa, e uma que quero explorar no futuro próximo: por que eu gosto de Shakespeare? Por que suas palavras tem tanto poder sobre mim?

sexta-feira, 12 de junho de 2015

De Dã a Berseba (2)

A expressão "de Dã a Berseba", encontrada repetidas vezes na Bíblia, designa toda a extensão territorial de Israel, de Dã ao norte até Berseba no sul, assim como no Brasil se usa a expressão "do Oiapoque ao Chuí". Aqui vão os links a alguns textos (ou vídeos, ou outras coisas) interessantes que encontrei recentemente, arrancados de diversos pontos da internet.

Zwinglio Rodrigues (um autor que eu até recentemente desconhecia, mas cujo blog é muito interessante) oferece alguns adendos perspicazes e muito bem pesquisados ao zilionésimo capítulo do longo drama arminiano-calvinista, agora entre Silas Daniel e Franklin Ferreira. Eu recomendo a todos que leiam, são textos excelentes.

Igrejas deveriam pagar impostos? Eu acho que não, mas é sempre interessante ver um argumento a favor da proposta que venha de alguém que não detesta igrejas como um todo.

Redescobrir e reler o blog do velho amigo sumido Gustavo Nagel foi um dos maiores prazeres dessa semana. De sua postagem mais recente: "O que Nietzsche passa todas aquelas páginas tentando fazer é nos alertar, a nós que o lemos hoje, para o fato de que a minha existência e a sua, tal como elas são, representam um retrocesso, um desperdício de séculos e séculos de história: não foi para a espécie chegar a gente como a gente que no princípio Homero e Sófocles existiram." Confirma-se o que sempre suspeitei: uma feiticeira cigana amaldiçoou o Nagel, condenando-o a apenas dizer coisas verdadeiras.

André Paes Leme conseguiu o impossível: me deixou curioso pra assistir uma produção modernosa- e em português- de Hamlet.

Norma Braga colocando em palavras o que sinto sobre essas tentativas evangélicas de boicote a empresa X, Y ou Z por motivo A, B ou C: é um tanto antipático.

Relacionado: como se o facebook não fosse insuportável o suficiente...

Extraído de um grupo de discussões do qual participo, um diálogo anônimo sem minha participação- mas ainda assim interessante!- sobre a linha tênue entre representações de racismo e representações racistas. Relacionado.

Um quiz muito pertinente.

A melhor coisa a ter saído daquele meme das pílulas que apareceu no facebook.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Epicteto

Existem livros que nos instruem por toda a vida, livros que geralmente descobrimos ainda jovens, e aos quais por anos podemos retornar, e sempre encontrar algum conselho, alguma coisa que ignoramos antes, e então nos salta aos olhos com todo o frescor e a força de uma verdade recém-encontrada. As Diatribes e o Enchiridion de Epicteto estão entre poucos livros que tem me acompanhado desde meu tempo na faculdade, e hoje encontrei na internet uma excelente edição do Enchiridion em português, na tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien, que pode ser encontrada aqui

Há algo de severo e prático em Epicteto que me lembra o apóstolo Paulo em seus momentos mais mau humorados, uma sabedoria distante que reduz as dores, as ansiedades, as invejas, as impaciências que correm no sangue a abstrações que podem ser encaixotadas e jogadas fora. Neste aspecto, Epicteto (assim como a maior parte dos outros estoicos) as vezes nem parece ser humano, mas o modo de vida que ele descreve permanece um ideal, algo que talvez com um pouco mais de experiência, um pouco mais de garra, um pouco mais de domínio próprio ainda possa ser alcançado. Alguns trechos:

*******

As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte – de que ela é terrível – que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideremos outra coisa a causa, senão nós mesmos – isto é: as nossas próprias opiniões. É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

*******

Jamais, a respeito de coisa alguma, digas: “Eu a perdi”, mas sim: “Eu a restituí”. O filho morreu? Foi restituído. A mulher morreu? Foi restituída. “A propriedade me foi subtraída”, então também foi restituída! “Mas quem a subtraiu é mau!” O que te importa por meio de quem aquele que te dá a pede de volta? Na medida em que ele der, faz uso do mesmo modo de quem cuida das coisas de outrem. Do mesmo modo dos que se instalam em uma hospedaria.

*******

Lembra que és um ator de uma peça teatral, tal como o quer o autor . Se ele a quiser breve, breve será. Se ele a quiser longa, longa será. Se ele quiser que interpretes o papel de mendigo, é para que interpretes esse papel com talento. se de coxo, de magistrado, de homem comum. Pois isto é teu: interpretar belamente o papel que te é dado – mas escolhê-lo, cabe a outro. 

*******

Podes ser invencível se não te engajares em lutas nas quais vencer não depende de ti. Ao veres alguém preferido em honras, ou muito poderoso, ou mais estimado, presta atenção para que jamais creias – arrebatado pela representação – que ele seja feliz. Pois se a essência do bem está nas coisas que são encargos nossos, não haverá espaço nem para a inveja, nem para o ciúme. Tu mesmo não irás querer ser nem general, nem prítane ou cônsul, mas homem livre. E o único caminho para isso é desprezar o que não é encargo nosso. 

*******

Se alguém entregasse teu corpo a quem chegasse, tu te irritarias. E por que entregas teu pensamento a quem quer que apareça, para que, se ele te insultar, teu pensamento se inquiete e se confunda? Não te envergonhas por isso?

*******

Estes argumentos são inconsistentes: “Eu sou mais rico do que tu, logo sou superior a ti”; “Eu sou mais eloquente do que tu, logo sou superior a ti”. Mas, antes, estes são consistentes: “Eu sou mais rico do que tu, logo minhas posses são maiores do que as tuas”; “Eu sou mais eloquente do que tu, logo minha eloquência é maior do que a tua”. Pois tu não és nem as posses, nem a eloquência.

*******

Jamais te declares filósofo. Nem, entre os homens comuns, fales frequentemente sobre princípios filosóficos, mas age de acordo com os princípios filosóficos. Por exemplo: em um banquete, não discorras sobre como se deve comer, mas come como se deve. Lembra que Sócrates, em toda parte, punha de lado as demonstrações, de tal modo que os outros o procuravam quando desejavam ser apresentados aos filósofos por ele. E ele os levava! E dessa maneira, sendo desdenhado, ele ia. Com efeito, caso, em meio a homens comuns, uma discussão sobre algum princípio filosófico sobrevenha, silencia ao máximo, pois o perigo de vomitar imediatamente o que não digeriste é grande. E quando alguém te falar que nada sabes e não te morderes, sabe então que começaste a ação. Do mesmo modo que as ovelhas não mostram o quanto comeram, trazendo a forragem ao pastor, mas, tendo digerido internamente o pasto, produzem lã e leite, também tu não mostres os princípios filosóficos aos homens comuns, mas, após tê-los digerido, mostra as ações.

*******

Postura e caráter do homem vulgar: jamais espera benefício ou dano de si mesmo, mas das coisas exteriores. Postura e caráter do filósofo: espera todo benefício e todo dano de si mesmo. Sinais de quem progride: não recrimina ninguém, não elogia ninguém, não acusa ninguém, não reclama de ninguém. Nada diz sobre si mesmo – como quem é ou o que sabe. Quando, em relação a algo, é entravado ou impedido, recrimina a si mesmo. Se alguém o elogia, se ri de quem o elogia. Se alguém o recrimina, não se defende. Vive como os convalescentes, precavendo-se de mover algum membro que esteja se restabelecendo, antes que se recupere. Retira de si todo o desejo e transfere a repulsa unicamente para as coisas que, entre as que são encargos nossos, são contrárias à natureza. Para tudo, faz uso do impulso amenizado. Se parecer insensato ou ignorante, não se importa. Em suma:
guarda-se atentamente como se fosse um inimigo traiçoeiro.

*******

Sinto o rosto corar só de ler estes conselhos, e ver o quanto estou longe de viver segundo eles. Deus me ajude.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Diplomacia Samiana

Do livro III das Histórias de Heródoto, a melhor coisa que li o dia inteiro:

Chegando a Esparta, os habitantes de Samos derrotados em terra pelas forças de Polícrates foram procurar os magistrados, explicando-lhes num longo discurso sua situação e suplicando-lhes auxílio. Ao término desta audiência os Lacedemônios lhes responderam que haviam esquecido o começo do discurso e que não haviam entendido o fim. Na segunda audiência os habitantes de Samos levaram-lhes um saco de couro e lhes disseram somente: "O saco quer farinha".

Existem mil livros sobre linguagem, diplomacia, e deboche dentro dessa anedota. Ela é em si mesma uma pequena educação política.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

De Dã a Berseba

A expressão "de Dã a Berseba", encontrada repetidas vezes na Bíblia, designa toda a extensão territorial de Israel, de Dã ao norte até Berseba no sul, assim como no Brasil se usa a expressão "do Oiapoque ao Chuí". Aqui vão os links a alguns textos (ou vídeos, ou outras coisas) interessantes que encontrei recentemente, arrancados de diversos pontos da internet.

Meu amigo Carlos Caldas aumenta ainda mais minha vontade de assistir o novo Mad Max

A. W. Tozer, edificante como sempre, no tema de graça preveniente.

Um resumo divertido do capítulo nhenhentos das LOUCAS AVENTURAS DE CAIO FÁBIO. Caio Fábio é, ainda, uma figura fascinante: divertido e refrescante em suas críticas, mas sempre tem algo que me faz levantar uma sobrancelha. Acho que se fizessemos um diagrama Venn de todas as pessoas que odeiam o Silas Malafaia intensamente, e todas as pessoas que admiram intensamente o Olavo de Carvalho, Caio Fábio se encaixaria na minúscula intersecção entre as duas categorias, sozinho salvo alguns libertários ateus universitários.

novela assembleiana continua. Aguardo com interesse a análise prometida pelo Pr. Geremias do Couto dos acontecimentos em Fortaleza.

Gutierres Siqueira sobre a demonização das mulheres no meio cristão. Muito bem, concordo, Tertuliano disse várias coisas erradas; mas não vamos descartá-lo por inteiro também. A teologia já tem tão poucos teólogos mordazes, e ainda menos teólogos com uma maldade tão deliciosa quanto a de Tertuliano. Ele é o Carlyle da igreja. 


Da leitura de livros velhos. Que vontade tenho de sacudir todo mundo pelos ombros e mandá-los ler Dante; de preferência com as anotações (mas não necessariamente na tradução) da Dorothy L. Sayers.

Um artigo do Claiton Pommering com vários trechos excelentes, mas um em especial que me chamou a atenção: "A experiência com o Espírito Santo deveria permear todo e qualquer fazer teológico pentecostal e neste sentido é mais importante que a própria teologia em si, caso contrário produzirá teólogos e alunos frios com uma teologia estéril que não satisfaz às demandas da vida e das próprias exigências do Espírito. Esta experiência não pode ser produzida artificialmente, a não ser pelo Espírito, mas pode ser desejada e intensamente buscada. Não precisa ser necessariamente o batismo no Espírito Santo ou falar em línguas, se bem que estas são experiências fundantes do pentecostalismo, mas devem ser a devoção e a intimidade com a vida do Espírito." Verdades, verdades everywhere.

Recentemente Josh Duggar, co-estrela de um dos reality shows mais insanos da televisão e um líder do movimento socialmente conservador americano, confessou ter abusado sexualmente de cinco meninas, entre elas quatro de suas próprias irmãs. Algumas considerações sobre como uma certa vertente isolacionista e patriarcalista do evangelicalismo pode se tornar um ambiente propício para a criação de monstros.

N. T. Wright e Shelly Kagan discutem vida, morte e ressurreição.

Uma defesa do Super Homem sombrio e marvado do Zack Snyder, que aponta para estes traços nas origens do personagem. Ok, tudo bem, ótimo: o Superman já foi um durão cínico e emocionalmente complexo, mas não pense por isso que vamos deixar de rir do Zack Snyder.

Roger Olson oferece algumas distinções entre seitas e grupos religiosos mais saudáveis.

 A opção do PT por estimular inclusão social pelo "direito ao prazer" e suas consequências para a configuração política atual.

"When he was right, he was prophetically right. Fearing and detesting the centripetal, black-hole suck of the almighty modern Self, he faced the other way: into the fact of Creation. There is a reality outside the mind, Chesterton insisted—and part of his energy was his innocent, unflagging astonishment that he had to keep on making the point. To us, the great solipsists, for whom the recognition of another human being requires a galvanic imaginative act, he speaks very directly." Vamos lá, Papa Francisco, canonize logo o Chesterton!

Netflix disponibilizou "Wolf Hall" em seu catálogo. Mark Rylance silenciosamente domina cena após cena de intriga renascentista; não há o que não amar nesse seriado. É o melhor programa de televisão do ano, ponto.

Juízes: Absalom Rex

Esta é a quinta (e por enquanto a última) parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. Você pode encontrar as partes anteriores aqui, aqui, aqui, e aqui.

Tendo dito isso, o que segue tem quase nada a ver diretamente com o Livro de Juízes. É mais uma consideração sobre a sombra que os juízes projetam sobre o resto da história.

Na medida em que nos aproximamos do final do Livro de Juízes, encontramos repetidas variações sobre a mesma frase: "Naqueles dias não havia rei em Israel." A frase não está lá apenas pra nos dizer quando a história ocorre, mas para oferecer alguma explicação para o caos do período tribal. Israel sofre por falta de um rei. Quando, em 1 Samuel, o povo clama por um rei, é desconcertante ver Deus e Samuel o repreendendo por desejar aquilo que, em tese, é a solução de seus problemas.

Ao lermos o aviso profético de Samuel sobre os males que a monarquia traria a nação, podemos resumir todos os problemas que os reis causariam em dois pontos principais: os reis cobrariam impostos do povo, e os reis levantariam exércitos. Em outras palavras, a monarquia introduziu duas coisas cuja necessidade era óbvia durante todo o período dos juízes: uma governo centralizado e uma política externa unificada e proativa. Seus defeitos podem ser numerosos, mas, em tese, reis podem trazer ordem para Israel. Pense nas mudanças efetuadas por Davi durante seu reinado: a instituição de Jerusalém como capital política e centro religioso da nação, a divisão dos levitas em suas devidas categorias, o posicionamento de Israel como poder regional do levante. Um bom rei pode trazer vitória, crescimento, glória para a nação; um mau rei pode trazer derrota, tirania, infâmia; mas para o bem ou para o mal, eles pelo menos conseguem- em tese- mobilizar a nação para fazer alguma coisa. Os juízes podem ser (salvo raras exceções) homens honrosos e servos de Deus, mas sua mera presença é um sinal de que a nação está em caos; eles foram levantados por Deus justamente para corrigir a desordem, para estabelecer em suas gerações e em suas localidades alguma semelhança de estabilidade, paz, autonomia. Se tudo estivesse bem, nós não os encontrariamos em canto algum da história. Com a chegada dos reis, juízes se tornam desnecessários; o tempo do caos passou, ordem é finalmente estabelecida...

...em tese.

Recentemente, ao reler 2 Samuel em preparação para uma aula, precisei fazer uma pausa para recuperar meu fôlego, esfregar meus olhos. Porque na segunda metade do livro, em pleno período monárquico, nos dias do rei mais famoso de toda a Bíblia, encontrei um portento do caos, um sinal de que retornamos aos dias em que não havia rei em Israel. Encontrei um juiz. Um juiz pernicioso, levantado por Deus para cumprir Seus propósitos terríveis: Absalão.

*******

Os livros históricos do Antigo Testamento são, em sua interpretação da vida política de Israel, dominados pelos temas interligados de poder e legitimidade. O poder pode ser concebido de muitas formas (carisma pessoal, pura força bruta, sagacidade, o comando de tropas), mas para os livros históricos há uma só fonte de legitimidade, uma só garantia de que um governante tem direito de exercer poder sobre outras pessoas: aprovação divina. Os juízes são levantados por Deus para liderarem o povo em seu momento de maior necessidade; eles não possuem apenas poder extraordinário, mas a permissão divina para utilizá-lo. O mesmo se aplica aos reis de Israel. Saul é ungido por Samuel como sinal de que foi autorizado para governar; quando Saul desagrada a Deus, Davi é ungido pelo mesmo profeta com o mesmo propósito,

Com estas duas unções, poder e legitimidade são divorciados, e postos em tensão um contra o outro: Saul é um homem com poder esmagador, mas sem aprovação divina para reinar; Davi tem o direito divino dos reis... e quase nada mais além disso. Os dois são colocados em lados opostos de uma gangorra, e o inevitável declínio de Saul resulta na ascensão e coroação de Davi. Não importa se Davi é apenas um rapaz Belém-de-Judaense, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindo do interior. Aprovação divina é, nesta história, a nascente do poder político, e tendo ela, Davi tem tudo, mesmo sem sabê-lo.

Um exemplo interessante disso ocorre no capítulo 30 de 1 Samuel. Quando seu bando de mercenários é dispensado da batalha contra Saul pelo rei Aquis, Davi retorna a seu feudo em Ziclague e descobre que sua família, e as famílias de todos os seus homens, foram raptados por um bando amalequita. Parte de seus guerreiros fica em Ziclague, parte acompanha Davi para recuperar suas famílias e seus bens roubados. Quando Davi retorna vitorioso, tendo recuperado tudo o que foi perdido, alguns dos homens que partiram com ele sugerem que como eles tiveram todo o trabalho de lutar contra os amalequitas, os que foram pra batalha deveriam receber todos os espólios que foram recuperados, e os que ficaram em Ziclague deveriam receber de volta apenas suas famílias. Davi se recusa a fazer isso, e declara que os espólios serão divididos igualmente entre todos, tanto os que foram para a batalha quanto os que ficaram para trás guardando o que sobrou de sua bagagem. "Davi fez disso um decreto e uma ordenança para Israel, desde aquele dia até hoje."

Observem o que o livro está nos dizendo. Davi nem está alinhado politicamente a Israel nesse período, ele é um mercenário na folha de pagamento do maior inimigo de Israel. Mas sua autoridade é tal que sua palavra é lei para toda Israel; sua simples resposta a um grupo de guerreiros se torna um estatuto permanente da nação. Davi não sabe ainda, mas enquanto ele corria atrás de escraveiros amalequitas, Saul se jogava, em desespero, contra sua própria espada. Davi, sem saber que é agora o único rei ungido em Israel, já pode fazer decretos reais. Poder e legitimidade são novamente reconciliados; Davi ainda levará anos para se tornar rei sobre toda a nação, mas agora é apenas uma questão de tempo.

*******

No auge de seu reinado, Davi faz uma coisa terrível: ele toma como amante Batseba, a esposa de um de seus soldados, a engravida, e então provoca a morte do marido traído para que seu erro não seja descoberto. Esta é a linha divisória na história de Davi. Tudo até então foi, no balanço das coisas, positivo para ele; tudo o que ocorrer depois será, no balanço das coisas, catastrófico. Davi e Batseba perdem seu filho, o primeiro de vários filhos de Davi que morreriam jovens. Davi encomenda um censo que provoca a ira de Deus, e resulta na morte de dezenas de milhares. Davi acidentalmente permite que um de seus filhos estupre a própria irmã, e então faz nada quando descobre o que aconteceu. Davi não perde sua legitimidade real inteiramente- Deus não buscou outro rei em potencial para ungir durante sua vida- mas após seu pecado ele nunca mais consegue manusear seu poder adequadamente. Davi se torna um rei capenga, incapaz. E em consequência disso, o caos retorna, encarnado na figura formidável de Absalão. A culminação de todos os eventos do Livro de Juízes é uma guerra civil iniciada por um estupro, levada a cabo por uma nação indignada pela crueldade dos benjamitas. A culminação de todos os eventos dos livros de Samuel é uma guerra civil iniciada por um estupro, levada a cabo por um filho revoltado com a complacência de seu pai perante o estupro de sua irmã.

Como Abimeleque, Absalão pretende tornar-se rei. Como Abimeleque, ele convida seus irmãos para um banquete com intenções fratricidas. Como Sansão, sua glória (e sua eventual derrota) está em seu luxuriante cabelo. Como Sansão, ele incendeia as colheitas de seus vizinhos para chamar-lhes a atenção. Como Eúde, ele é sutil, e um grande ator. Como Débora e os juízes de outrora, ele se posiciona em lugares públicos e recebe a população, pronto para ouvir suas reclamações. E ao ouvir cada reclamação, Absalão clamava, "Ah! Quem me dera ser juiz na terra!"

Absalão não sabe, mas ele já é um juiz, levantado por Deus para humilhar e (mesmo que temporariamente) derrotar o próprio rei ungido do SENHOR. Um juiz maligno, como Abimeleque; um juiz cabeludo e libertino Sansão; mas um juiz vingador, como todos eles. Quando Israel desce ao abismo do caos e da inércia perante o mal, Deus levanta um juiz para corrigir a situação. E quando Davi, o líder e representante do povo, o homem que personifica em si mesmo as honras e contradições de Israel, flerta com esse abismo, Deus escolhe um de seus próprios filhos para usar como seu flagelo.

A monarquia garante nada, não estabelece qualquer paz permanente, não protege o reino de depredações estrangeiras. O rei não pode impedir o caos de consumir sua própria família, que dirá a nação. A lógica deuteronômica prevalece, com os juízes ou sem eles. O ciclo de opressão e livramento continua para além do Livro de Juízes, e estampa todo o Antigo Testamento com seu padrão ensanguentado. O Livro de Juízes não é apenas a história de Israel em suas origens; ela é um resumo antecipatório de tudo o que viria pela frente.

Chega de sangue, chega de guerras civis, chega de juízes. Vamos adiante para tópicos mais felizes.

domingo, 17 de maio de 2015

Juízes: Mito e Imaginação

Esta é a quarta parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. As partes anteriores podem ser encontradas aqui, aqui, e aqui.

C. S. Lewis tinha uma definição meio ampla e idiossincrática de mito. Um mito não seria tanto uma narrativa que explicasse o mundo, e mais uma história cujo simples esboço, mesmo sem maiores elaborações poéticas, tocasse em algo comum e profundamente verdadeiro ao ser humano. O mito seria uma história com poder inerente, um esqueleto vivo de trama que, muito mais do que as camadas de músculo narrativo, gordura estética e epiderme linguística que poderiam crescer em torno do mito, define sua estrutura e exige do leitor alguma reação.

Um homem desce ao mundo dos mortos para salvar sua amada, e a perde no caminho de volta porque olha para trás. Um dardo de mirtilo atinge o coração de Baldr, e a esperança do mundo está morta. A morte de Osíris é a causa da fertilidade do Egito; sua entronização no mundo dos mortos o coloca na porta de entrada para o pós-vida. Cristo em sua morte e ressurreição encapsula toda perda e toda derrota, mas também toda vitória e todo ganho; entre o Gólgota e o túmulo vazio encontramos toda a história do mundo.

Sim, mitos buscam explicar o mundo, tentam jogar luz sobre as origens e a ordem das coisas; mas elas só funcionam, e só são lembradas por nós até hoje, porque há algo nelas que ressoa em nossos corações. Há algo de espiritualmente verdadeiro em todo mito; sua veracidade histórica é quase um detalhe.

Eu digo "quase" porque creio que vários mitos de fato ocorreram.

O principal exemplo disto é que creio na morte e ressurreição de Cristo; creio que Deus tornou real em fato físico e histórico todos os sussurros míticos que circulavam sobre uma vitória espiritual e abstrata sobre a morte. Como Lewis diria, afirmar que certas histórias na Bíblia são míticas não significa necessariamente postular que elas são historicamente falsas. História bíblica seria entendida então como a encenação concreta de uma variedade de realidades espirituais outrora apenas simbólicas.

A estrutura cíclica da história contada no Livro de Juízes é, nessa interpretação um tanto folgada de mito que Lewis emprega, mítica. A história que o livro conta sobre Israel, continuamente caindo em pecado e continuamente sendo resgatada, pode ser lida como a história de cada ser humano que perde sua inocência e implora por livramento divino. Assim como a cidade da República é um retrato, em escala ampliada, do ideal platônico da alma em equilíbrio, a história de Juízes pode ser lida como um estudo de caso sobre o pecado e suas consequências, e aplicada num nível individual ao leitor.

Eu digo que o livro "pode" ser lido deste modo porque não quero ir longe demais, e cair sem querer numa febre alegorizante. "Pode" não é o mesmo que "deve". Só digo que não estou fechado a este tipo de interpretação, pelo menos em alguns casos.

*******

Histórias bíblicas são continuamente recontadas na literatura, ganham sempre novas adaptações. O que mantém estas adaptações interessantes, mesmo se já lemos a mesma trama diversas vezes em diferentes recontagens? Eu vejo dois motivos por isso. O primeiro, como mencionado acima, é que mitos possuem um poder todo seu, são sementes inerentemente interessantes que podem, com relativa facilidade, florescer em histórias riquíssimas.

O segundo motivo é que a vasta maioria dos personagens bíblicos são opacos para nós. Eles vivem num mundo tão distante, eles aparecem tão brevemente e somem tão repentinamente que deles possuímos apenas vislumbres. Os melhores autores de adaptações de histórias bíblicas entendem isso, e buscam de algum modo satisfazer nosso apetite bisbilhoteiro por alguma ideia de como essas figuras realmente eram. Eles podem nos apresentar versões inusitadas de personagens bíblicos, reconfigurar as figuras da história de maneiras originais e intrigantes: o Jacó contemplativo de The Son of Laughter, o Davi sardônico de God Knows, o Jesus atormentado de A Última Tentação de Cristo.

Em outras palavras: aceitamos ler dezenas de versões diferentes da mesma história porque, no final das contas, elas nunca são exatamente a mesma história. Os atos dos personagens podem ser os mesmos, mas a vida interior deles é diferente em cada versão. Os personagens são interessantes porque descobrimos e redescobrimos que não os conhecíamos inteiramente; talvez, que não os conhecíamos realmente.

A riqueza da ficção criada a partir da Bíblia nos deve, portanto, alertar que o texto em si não nos oferece muitos detalhes sobre seus personagens. Salvo raros momentos, o texto bíblico não nos dá qualquer ideia do que seus personagens estavam realmente pensando. O que significa que um dos maiores problemas que enfrentamos em nossa leitura da Bíblia é nossa própria imaginação, nosso desejo impulsivo de preencher as lacunas e projetar ideias, estados mentais e motivações sobre as pessoas que encontramos no texto. O aviso dos romancistas é simples mas necessário: tome cuidado para não injetar seus valores e juízos nos personagens.

Quando nos chegamos aos juízes, que são descritos tão brevemente, de quem sabemos tão poucos detalhes, este é um aviso que precisamos recordar a cada palavra.  Os juízes despontam nas páginas da Bíblia como cometas quase rápidos demais para serem rastreados pelo olho humano; eles são monolitos indecifráveis, eles possuem dentro de si um dinamismo que os reduz, apesar de nossos esforços imaginativos, à soma de seus atos registrados. Releio um texto anterior que escrevi sobre os juízes, e me sinto envergonhado por não ter levado isso em conta. Meu amor por personagens fisicamente fracos mas sagazes transforma Eúde, em minha mente, num malandro carismático. Meu desgosto por pessoas que usam força bruta para alcançarem seus fins transforma Sansão num megalomaníaco violento. Débora se transforma numa proto-feminista radical, Jefté se torna um Agamenon paraguaio - mas ainda insisto que ele foi um besta.

Os juízes menores, que são apenas mencionados em punhados de versículos, são ainda mais enigmáticos. Sangar matou seiscentos filisteus com seu aguilhão; o que o livro espera que eu faça com essa informação? Ibzã tinha trinta filhos e trinta filhas; como posso começar a entender um califa oriental que aparece do meio do nada, e some da história imediatamente depois?

Eu li o Livro de Juízes três vezes desde o começo do ano, e cada vez que termino de lê-lo sinto que conheço a história cada vez menos. Quem eram essas pessoas?

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Juízes: Sexo e Violência


Esta é a terceira parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. As anteriores vocês podem encontrar aqui e aqui.

Não sei que reação as palavras "sexo e violência", assim juntas, provocam em vocês. Para mim, enquanto consumidor regular de cultura pop em suas formas não sempre muito respeitáveis (quadrinhos, cinema trash, videogames, etc.), elas trazem ecos de dezenas de propagandas, sejam trailers de filmes ou encartes em gibis, que contém a frase, ou variações dela, como uma promessa entusiástica: yes, nós temos séxiviolência, séxiviolência pra dar e vender. Geralmente o sexo é separado da violência: primeiro um prato cheio de violência, e então um um pouquinho de sexo pra sobremesa. Ocasionalmente, como em alguns filmes de terror, o sexo é misturado com a violência para inserir numa cena aquele toquinho extra de horror e degradação. Em alguns casos, a fusão dos dois é tantas vezes repetida que ela se torna uma piada entre fãs certos filmes; ai do casal, em qualquer filme da série Sexta-Feira 13, que decidir fazer sexo durante seu acampamento, pois Jason é um desmancha-prazeres vigilante e severo.

Resumidamente: as palavras "sexo e violência" são, em nosso entretenimento, uma garantia de que haverão divertimentos perversos. Pensem na maneira sentimental e afetuosa na qual Alex em Laranja Mecânica antecipa "a bit of the old ultra-violence". Violência estilizada, sexo irreal, tudo numa embalagem atrativa.

*******

Não há este glamour na violência sexualizada do Livro de Juízes, apenas sexo e violência em suas combinações mais horripilantes. Aliás, isto não está certo. Não há "sexo e violência"; em Juízes sexo é violência, porque tudo mais no livro também é violência, e se a própria expressão da vontade divina não escapa dessa categoria, não é o sexo que vai se safar. Observem, por exemplo, duas maneiras em que Juízes sexualiza atos violentos cometidos por mulheres.

A primeira é a maneira em que atos de violência cometidos por mulheres são retratados à luz de seu gênero: a derrota nas mãos de uma mulher seria especialmente humilhante, e os personagens do livro expressam essa humilhação cada vez que ela ocorre. Quando em Juízes 4 Baraque se mostra inseguro de ir contra o general cananeu Sísera, a juíza Débora aceita acompanhá-lo na campanha, mas avisa que, por causa de sua pusilaminidade, ele seria privado da glória de derrotar seu oponente: Sísera morreria nas mãos de uma mulher, uma humilhação tanto para o general cananeu que levará uma estaca na cabeça (e vamos retornar a essa estaca daqui a pouco) quanto para o general israelita que perderá sua principal presa para uma dona de casa. Esta humilhação é afirmada ainda mais explicitamente por Abimeleque; quando, na sua invasão de Tebes, uma mulher acerta sua cabeça com um pedra e racha seu crânio, Abimeleque apressadamente implora que seu escudeiro termine sua vida para que ninguém diga que foi uma mulher que o matou. O fato de que esse detalhe, e as desesperadas últimas palavras de Abimeleque, estejam relatadas (com satisfação marota) no livro nos mostra que sua tentativa de escapar a ignomínia falhou.

A segunda é o modo em que atos de violência cometidos por mulheres são erotizados, e contém um certo elemento de inversão de papéis de gênero. As mulheres perigosas de Juízes destroem os homens sempre com ataques contra sua cabeça: a estaca de Jael na testa de Sísera, a pedra no crânio de Abimeleque, a navalha nos cabelos de Sansão. Todo o simbolismo bíblico que retrata poder masculino sobre família e sociedade em termos do homem ser "a cabeça" não pode salvar as próprias cabeças condenadas desses homens.

Mais do que isso- e me perdoem se estou enxergando coisas no texto que podem não estar lá- não haveria algum subtexto sexual nas ações de Jael e Dalila? Sísera, o grande guerreiro, tem sua cabeça penetrada por um grande símbolo fálico, martelado lá pelas mãos de Jael. Sansão perde sua força depois de dormir no colo de Dalila; após deitar sua cabeça sobre as pernas de nossa anti-heroína filisteia ele se torna literalmente impotente, sem poder. Sei que não estou sozinho nessa leitura; aqui está (novamente) John Milton pra me ajudar, colocando na boca de Sansão o lamento de que:

Softened with pleasure and voluptuous life
At length to lay my head and hallowed pledge
Of all my strength in the lascivious lap      
Of a deceitful Concubine, who shore me,
Like a tame wether, all my precious fleece...

Milton vai mais longe (bem, bem, bem mais longe) do que minha simples analogia de impotência. O enfraquecimento de Sansão é literalmente retratado como um ato de castração, sua vítima reduzida a um bode emasculado, "a tame wether", após deitar o símbolo de toda a sua força no (e não apenas, note, sobre o) "colo lascivo" de Dalila. 

*******

Mas isso tudo é nada comparado com a violência de homens contra mulheres em Juízes. A filha de Jefté, sacrificada por causa de um voto besta de seu pai, ou forçada a uma vida de isolamento religioso por causa de um voto besta de seu pai.* A pobre e anônima esposa timnita de Sansão, queimada viva junto com seu pai por causa de uma vingança cretina de seu marido contra os filisteus. Mas nada se compara, em termos de puro horror, com a história final do Livro de Juízes, a narrativa da chacina dos benjamitas nas mãos das outras tribos de Israel.

Um levita e sua concubina, passando de viagem por Gibeá, se hospedam na casa de um velho, um efraimita que habitava temporariamente na cidade. Um grupo de homens da região, benjamitas, seguros de que poderiam agredir esses forasteiros sem maiores repercussões, cercam a casa e exigem que o velho entregue seu visitante levita a eles, para que eles possam estuprá-lo. Encontramos por todo o mundo antigo a tática de usar violência sexual para provar dominância sobre figuras mais fracas- soldados derrotados, populações sob ocupação militar, ou como nesse caso e na história dos anjos visitando Sodoma, forasteiros, pessoas sem vínculos com a população local, e portanto pessoas sem defensores na cidade.** O levita covardemente empurra sua concubina para fora e a deixa nas mãos dos benjamitas, e após ser estuprada por eles ela consegue apenas se arrastar de volta para a porta da casa antes de morrer. Ao ver o que havia acontecido, o levita retalha o corpo da infeliz em doze parte, e envia um pedaço para cada uma das tribos, com uma explicação dos acontecimentos e uma exigência: vingança.

Os líderes das outras tribos exigem que os benjamitas entreguem os estupradores e assassinos de Gibeá para que sejam executados; os benjamitas insolentemente se recusam, e a tribo se ajunta em Gibeá para defender os estupradores. Indignados, os homens das outras tribos mataram toda a tribo de Benjamin, salvo seiscentos homens que conseguiram escapar. As tribos então decidem parar com a matança ("as onze tribos de Israel" não tem, afinal, o mesmo charme numerológico que doze), e os sobreviventes deparam-se com um problema: ninguém quer dar suas filhas em casamento para uma tribo cuja maior fama agora é a de ser uma quadrilha de estupradores e defensores de estupradores. Como impedir que a solteirice termine o serviço que a guerra começou? Simples! A vila de Jabes-Gileade se recusou a participar da matança dos benjamitas; como castigo, os homens de Israel exterminam toda a população de Jabes-Gileade exceto as moças virgens, que são entregues aos benjamitas como esposas em Siló. Não haviam moças o suficiente para todos os benjamitas em Jabes-Gileade? Sem problemas! Os benjamitas são autorizados a raptar em Siló quantas mulheres fossem necessárias para que cada um tivesse uma esposa.

A história começa com o estupro de uma mulher. Ela termina com o estupro e casamento forçado de seiscentas. Termina com o massacre de cidades inteiras. O Livro de Juízes já mostrou como mulheres podem ser juízas e assassinas de tiranos; uma mulher pode mudar o rumo da história com uma profecia, uma pedrada na cabeça, um cochilo sobre seu colo. E agora elas são reduzidas não apenas a propriedade- quase toda mulher na civilização levantina e na maior parte das outras do mundo centrado no Mediterrâneo era propriedade de alguém- mas a comodidades, a coisas que podem ser roubadas de suas famílias e entregues livremente a homens que, pouco tempo atrás, todos achavam dignos de morte. 

O Livro de Juízes entende o horror desta situação. A história começa e termina com as mesmas palavras, com o refrão que se repete pelo livro quando se tenta explicar o caos da nação naquele período: "Naqueles dias não havia rei em Israel..." A história da guerra entre Israel e os benjamitas é precedida pela história de Mica e seu sacerdote particular, apesar da história de Mica acontecer séculos antes dos eventos que seguem nos capítulos seguintes. A história de Mica é um prefácio para a narrativa dos estupros e da guerra civil, é posicionada lá para nos dar um gosto do caos, da depravação, da situação moral abjeta de Israel. O livro tira o pé do freio e acelera com toda a velocidade rumo às atrocidades finais; o ritmo crescente dos horrores nos deixa estupefatos, mas torna clara a posição do autor/autores/redator/insira-aqui-seu-termo-preferencial. O que aconteceu com a mulher do levita, com as pessoas inocentes de Benjamin, com as mulheres de Jabes-Gileade e de Siló é indefensável, indesculpável, quase incompreensível.

O que me deixa surpreso é que Juízes, escrito milênios atrás numa das sociedades mais firmemente patriarcais da história, tem um senso mais humano, mais justo, mais indignado para com a tragédia destas mulheres do que os editores modernos de nossas próprias Bíblias. No início de Juízes 20, quando as tribos recebem as partes da concubina assassinada e planejam sua guerra contra os benjamitas, encontramos o seguinte subtítulo inserido pela sapientíssima comissão que preparou a tradução Almeida Revista e Corrigida da Bíblia (edição 2009): "Os israelitas vingam o ultraje feito ao levita."

Uma mulher é lançada nas mãos de um bando de criminosos que a estupram a ponto de provocar sua morte. Seu corpo é dessacrado, mutilado em doze pedaços para servir de convite para uma guerra que resultaria no genocídio de quase todos os benjamitas. E quem é a pessoa ultrajada? Quem é, aos olhos dos nobres biblistas, a verdadeira vítima nessa história?

O mané covarde que a jogou aos lobos. 

*******

* Intérpretes discordam quanto ao que, exatamente, aconteceu com a filha de Jefté; todos concordam que Jefté foi um besta.
** O que prova a imbecilidade de afirmar que o pecado de Sodoma e Gomorra era homossexualidade. O pecado que trouxe destruição sobre sodomitas e benjamitas não era um apetite sexual gay por anjos e levitas, mas a agressividade maligna e oportunista que leva certos indivíduos a violarem pessoas indefesas simplesmente porque eles podem.

domingo, 10 de maio de 2015

Juízes: Corpos Obstruídos

Esta é a segunda parte de uma série de reflexões sobre o Livro de Juízes. A primeira você encontra aqui.

 Um aspecto do Livro de Juízes que sempre chamou minha atenção é a maneira em que ele relaciona o corpo com poder e fraqueza, com o uso ou o sofrimento da violência. A maneira mais evidente disso está na atenção única (comparada, pelo menos, com o resto da Bíblia) que Juízes dirige aos corpos de mulheres, seja nas atrocidades sexuais cometidas contra mulheres na parte final do livro, seja na maneira em outras partes em que mulheres invertem o que seria o papel que homens imporiam a elas, assumem o papel "ativo", e dão o troco. Mas esse é um tema pesado demais para uma madrugada gentil; ele certamente será abordado da próxima vez. O que quero fazer hoje é colocar no papel- certo, colocar na tela do computador- alguns pensamentos espalhados sobre como o Livro de Juízes trata da fraqueza e poder do corpo, focando em três partes específicas: a mão esquerda de Eúde, as línguas dos efraimitas, e o cabelo de Sansão.

*******

A Nova Versão Internacional, em sua tradução de Juízes 3:15, relata:"Novamente os israelitas clamaram ao SENHOR, que lhes deu um libertador chamado Eúde, homem canhoto, filho do benjamita Gera."

Isto não está inteiramente correto. É altamente provável que Eúde fosse, de fato, um homem canhoto; os benjamitas, mais do que qualquer outra tribo de Israel, pareciam ter uma propensão especial para a geração de filhos canhotos. Mas a condição de Eúde não é relatada em termos neutros. O texto de Juízes não descreve Eúde simplesmente como um homem canhoto, mas como um homem "obstruído em sua mão direita." Tal como inúmeras outras culturas antigas, a sociedade israelita parecia identificar o lado direito com habilidade, força, e sabedoria, enquanto o lado esquerdo era identificado com fraqueza, inaptidão, e tolice. A canhotez (canhotice? esquerdinez? sinistromanualidade?) de Eúde é retratada como uma deficiência, uma fraqueza na mão direita que o obriga a usar a mão esquerda. O fato de que Juízes insiste em esclarecer este ponto, em estabelecer antes de mais nada que Eúde usa primariamente sua mão esquerda, nos dá uma noção de como ele será caracterizado.

Eúde é- como se tornaria o clichê para personagens canhotos- ardiloso. Ladino. Gideão pode ser, inicialmente, um rapaz timoroso e inseguro, Jefté um rufião imprudente, Débora uma magistrada piedosa, Sansão um valentão intemperado; mas Eúde é singularmente, maravilhosamente, o juiz malandro. Seu curioso instrumento de homicídio, uma lâmina de pouco menos de meio metro de cumprimento, tem um propósito muito específico: curta demais para ser usada em batalha, longa demais para o uso do assassino convencional, ela é do tamanho perfeito para se enfiar no estômago de um homem morbidamente obeso. Seu assassinato político do rei Eglom de Moabe é narrado de modo deliciosamente tenso, cômico, selvagem. O golpe é desferido, inesperadamente, pela mão esquerda; o canhoto pode alcançar sua arma sem atrair atenção, sem elicitar gritos de socorro de sua vítima até que seja tarde demais. O que aparentava ser a fraqueza de Eúde é revelada como sua maior vantagem. Sua mão esquerda é um sinal de azar, desastre, e má intenção; e ela concretiza toda sua promessa maligna não em Eúde, mas em um gesto rápido e certeiro sobre seu inimigo.. A mão sinistra cumpre seu propósito sinistro. Sua estranha espadinha encontra sua bainha perfeita: as entranhas de um rei.

Peço perdão a todos por meu entusiasmo transparente por essa história. Compartilho com os puritanos um jovial apetite por regicídio.

*******

Há uma lenda divertida que se conta sobre a Guerra do Paraguai. A senha utilizada para admissão nos campos militares brasileiros seria a frase "Cair no poço não posso". Espiões paraguaios eram detectados- e presumivelmente executados- assim que dissessem, no seu portunhol mais corajoso, "Cair nô pôço nô pôsso."

A versão original dessa história pode ser encontrada em Juízes 12, no conflito entre os homens da região de Gileade, liderados pelo juiz Jefté, e guerreiros de tribo de Efraim. A história nos mostra que o melhor tipo de guerra civil é aquele no o dialeto local de seus conterrâneos inimigos é tão forte que certas palavras se tornam impronunciáveis. Chibolete é a própria definição de uma palavra prosaica: significa a parte de uma espiga que contém grãos. Mas os pobres efaimitas tinham tanta dificuldade em formar o xiado inicial de chibolete quanto os espias paraguaios tinham em pronunciar o "não" português; chibolete se tornava, em suas bocas, sibolete. Cada efraimita que tentasse escapar do cerco imposto por Jefté e seus gileaditas era obrigado a dizer chibolete. Um por um, eles disseram sibolete. E um por um eles foram atravessados por espadas. Suas línguas os traíram.

Esta é uma história edificante e educacional. Ela nos ensina a maneira em que dialetos se tornam idiomas oficiais: é só destruir as pessoas que falam de modo diferente. As pessoas erradas falam do jeito errado. Uma pessoa errada pode ter a mesma aparência que você. Ela pode ter a mesma cultura, a mesma religião, a mesma visão de mundo que você. Ela pode ser parte da mesma nação, ela pode ser filha de Abraão, Isaque e Jacó como você. Mas observe sua pronúncia, suas vogais pré-tônicas, suas oclusivas dentais. Homem nenhum pode domar sua língua; a língua é traiçoeira, e te dirá tudo o que você precisa saber para determinar se alguém é errado ou não, mesmo se ele só lhe dirigiu um "Bom dia."

*******

Sansão faz parte de uma ordem santa. Sansão é um safado. Sansão é dotado de força sobre-humana. Sansão é um crianção petulante.

Sansão é, de todos os juízes, talvez aquele retratado de maneira mais humana, mais realista, apesar de sua super-força. Sansão é arbitrário, como nós. Sansão é dominado por seus desejos, como nós. Sansão tem grandes ambições, como nós. Mas ele não é como nós. Ele é, de todos os personagens da Bíblia, o que mais parece um super-herói. Apesar de ser, como muitos personagens da Bíblia, um escravo de seus impulsos. Em um aspecto, não há personagem mais distante da realidade humana comum; ele é essencialmente um Hulk israelita. De outro lado, não há personagem mais sentimental e fraco: ele é essencialmente um adolescente emo israelita.

Acho que pela primeira vez entendo porque não gosto de Sansão. Ele é uma combinação quase perfeita de poder e futilidade. Pura potência combinada com puro apetite. Entendo perfeitamente que esse é um desprezo hipócrita: ao final das contas eu não sou melhor que ele. Eu recebi pouco, e fiz quase nada com o que Deus me deu. Ele recebeu muito, e fez menos do que poderia. Ninguém tem o direito de se colocar na situação de outro, e imaginar o que faria ou não faria. Mas ainda assim: a impressão geral que se tem da vida de Sansão é a de desperdício. John Milton, poeta supremo do protestantismo, acertou em cheio no seu Samson Agonistes: Dalila, em comparação com seu paramour, nem pode ser chamada de vilã. Ela é, na pior das hipóteses, uma anti-heroína, a Sansão feminina dos filisteus, exceto que ela cumpriu seu propósito, enquanto Sansão falhou. Qual povo foi melhor servido de campeões? Na história de cada povo, Dalila mereceria ter seu rosto estampado no dinheiro dos filisteus; Sansão tem seu merecido lugar na história israelita: uma embaraçada nota de rodapé.

Minha pedra de tropeço, a causa de meu fascínio e estupefação, é a condição que Deus impõe ao poder de Sansão. Sansão é invencível desde que ninguém corte seu cabelo. Assim que sua pelugem for tosqueada, o poder divino se retrai, e Sansão se torna um mero mortal.

A navalha correndo por entre os cabelos de Sansão. A flecha perfurando o calcanhar de Aquiles. A destruição das múmias dos faraós. O giro para trás da cabeça de Orfeu, ansioso para ver Eurídice. Os dentes de Eva sobre o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Uma ação física destrói uma realidade espiritual.

A história de Sansão nos lembra que não somos puros seres espirituais. Não somos anjos, não somos fantasmas. Somos bípedes, criaturas compostas de células, moléculas, átomos. Em nós o espiritual e o físico, o sobrenatural e a poeira são entrelaçados, são unidos e divididos por simples arranjos materiais. O poder que flui de uma para a outra pode ser interrompida com uma simples tesourada. Não existe, de qualquer maneira que consigamos discernir e separar, uma divisão clara entre o físico e o espiritual.

A história de Sansão é chocante porque quebra o feitiço de Platão, e nos faz despertar para nossos corpos. Nós somos anfíbios, físicos e espirituais, e o favor divino pode repousar sobre o que veriamos como uma mera condição física. O físico é o espiritual, está casado indissoluvelmente com o espiritual. Não possuímos corpos; nós somos nossos corpos. Cada um de nossos dedos é tanto nós mesmos quanto nossa própria alma. Cada uma de nossas unhas. Cada um de nossos cabelos.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Juízes: Abismo Sobre Abismo

O que segue é a primeira de algumas reflexões sobre o Livro de Juízes, o mais deprimente de todos os livros da Bíblia.

Deparando-me pela primeira vez com a responsabilidade de ensinar uma disciplina sobre a história da Antiga Israel, tentei traduzir em termos compreensíveis ao contexto brasileiro atual o que seria um juiz vetero-testamentário, um shofet como encontramos no Livro de Juízes. Um juiz poderia ser compreendido como uma autoridade cívica, um executor da lei divina da mesma maneira em que os juízes de nossa sociedade determinam casos segundo a nossa lei? Obviamente não. O Livro de Juízes parece estar particularmente desinteressado com qualquer forma de ação jurídica; o juiz mais próximo, na compreensão de nossa cultura, aos juízes bíblicos seria Judge Dredd. Os juízes seriam generais, comandantes de guerreiros israelitas contra invasores externos? No caso de alguns, como Otniel, Gideão ou Jefté, sim. Mas como explicar figuras como Sansão, que aparece como um ogro homicida, lascivo e solitário, e ao fim de sua vida uma espécie de homem-bomba primitivo? Ou Sangar, que desponta em apenas um versículo do livro como um especialista na arte perdida de matar centenas de filisteus armado apenas com um aguilhão? Débora é uma profetisa, uma incitadora de exércitos, mas não uma comandante direta sobre eles. Os juízes seriam libertadores, líderes guerrilheiros contra opressores estrangeiros? Como então explicar Abimeleque, que matou seus setenta irmãos, e tentou se impor sobre Israel como rei? Aqui encontramos, isolado em sua glória nefasta, o juiz-do-mal: o homem que, por não temer a Deus, por não dedicar se ao SENHOR ou ao seu povo, por seu egoísmo, por sua violência, por sua mesquinha vontade-de-poder, acabou definindo para mim o que eram os juízes: os juízes eram caudilhos, figuras na Israel tribal que inspiravam e conduziam os rumos do povo, ora por retórica espiritual, ora por puro poder militar. A analogia mais próxima que encontrei para o contexto brasileiro foi que os juízes eram os coronéis (no estilo mais caricaturalmente nordestino do termo) da Antiga Israel.

O fato de que os coronéis da Antiga Israel são os heróis da história de Juízes nos dá um senso desesperador da situação da nação naquele período.

O Livro de Juízes é estruturado segundo uma lógica teológica precisa e coerente: segundo o pacto feito entre Deus e Israel em Deutronômio, da qual céus e terra são invocadas como testemunhas, se Israel fosse fiel ao SENHOR, ela seria uma nação próspera, abençoada, feliz. Se Israel fosse infiel ao SENHOR, ela seria invadida, oprimida, destruída por dentro e por fora. Céus e terra são testemunhas: se Israel cair em idolatria, maus tempos virão.

Cair em idolatria é exatamente o que Israel faz logo após a morte de Josué. Céus e terra são testemunha: o castigo é certo. E o que se estabelece é um ciclo horrível e redundante, no qual diferentes tribos de Israel- e ocasionalmente a nação inteira- caem em idolatria, colhem em consequência de sua infidelidade invasões e sofrimentos, se arrependem, voltam a Deus, e Deus levanta no meio do povo um juiz que liberta seu povo da invasão externa, re-estabelece o culto ao SENHOR, e governa até sua morte. Após a morte do juiz, o povo volta a adorar deuses estranhos, e o ciclo se repete. De novo, e de novo, e de novo, Até os dias de Eli. Até os dias de Samuel, O ciclo de idolatria-arrependimento-libertação-idolatria é uma constante no Livro de Juízes. Não há livramento permanente; não há resolução para o drama religioso de Israel; só existem resoluções temporárias, breves momentos de cumprimento do pacto deuteronomístico, antes que tudo volte para o tedioso e terrível ciclo. Os próprios juízes se tornam, por fim, agentes na destruição de futuras gerações: o éfode de Gideão se torna objeto de idolatria, seu filho se torna um tirano. Juízes são levantados por Deus. juízes são esquecidos. Tudo volta ao normal. E o normal é o caos.

Marx escreveu que a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa. O Livro de Juízes nos obriga a perguntar: e da terceira vez? E da sétima? E da décima? A leitura deuteronomística dos eventos impõe uma certa ordem, um significado espiritual ao que ocorre: Israel desobedece e é punida; Israel se arrepende, e é livrada. Mas da próxima vez que você tiver algumas horas livres, leia o Livro de Juízes de uma vez só, sem pausas ou interrupções. O efeito do livro sobre a mente é apenas um: caos. Caos sobre caos, abismo sobre abismo, com ocasionais intervenções divinas. A história de Juízes não é uma história feliz. Os personagens que acompanhamos não são sempre- convenhamos, não são uma boa parte das vezes- boas pessoas. O resultado cumulativo de tudo o que os juízes se empenharam para estabelecer não foi livramento, salvação, restauração de Israel ao culto ao SENHOR; o resultado final foi estupro coletivo, guerra civil, e extermínio de populações inteiras. O final feliz do Livro de Juízes nunca chegou. O final dessa história foi a coroação de Saul. Foi a breve era de ouro de Davi e Salomão. Foi- novamente- guerra civil, e divisão agora permanente entre as casas de Israel. Foi invasão e- novamente!- extermínio por invasores estrangeiros. Foi exílio, e dominação externa, e opressão por séculos. Por milênios.

Todo o esforço e toda a luta só terminam com o povo retornando ao que causou seus problemas no primeiro lugar. As únicas constantes são a ira de Deus, e o caos onipresente, que encobre a nação, e amarga até leitores remotos, que acompanham a história milênios depois. 

As palavras finais do livro: "Naqueles dias não havia rei em Israel, e cada um fazia o que era direito aos seus próprios olhos."

O fato de que o Livro de Juízes parece ver a falta de um rei como a raiz dos problemas de Israel nos dá um senso desesperador da situação da nação naquele período.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Revelação Divina e Violência Religiosa

Por algum motivo, nos dias desde os ataques ao Charlie Hebdo (e as notícias desalentadoras de mais ataques terroristas em outras partes do mundo), minha mente tem retornado continuamente ao primeiro texto de Karl Barth que li. Na época eu era um adolescente fascinado por apologética, tendo devorado todos os livros de C. S. Lewis ao meu alcance, e começando a descobrir G. K. Chesterton e Francis Schaeffer (Josh McDowell era um pouco prosaico; Cornelius Van Til sempre foi áspero demais para meu gosto, e larguei os livros dele que encontrei na biblioteca de meu pai após algumas mordidinhas). Curioso para descobrir mais autores, fiz uma busca no yahoo (sim, faz tanto tempo assim) por textos apologéticos e levei uma ducha de água fria na cara, cortesia de Barth, com um dos trechos mais famosos de seu comentário da Epístola aos Romanos. Comentando Romanos 1:16 ("Porque eu não me envergonho do Evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê; primeiro do judeu, assim como do grego."), Barth escreve:

"Eu não me envergonho" O evangelho não precisa ir em busca de polêmica com as religiões e filosofias do mundo, nem tão pouco precisa temê-las ou fugir delas. O evangelho persiste e subsiste por si, como a mensagem que vem da linha de interseção do plano deste mundo como plano do mundo do além, desconhecido para nós. O evangelho não entra em concorrência com quaisquer teorias ou pesquisas ou outras elucubrações e deduções que a ciência, a sabedoria ou cultura possam haver encontrado ou ainda venham a encontrar mesmo que sejam transcendentais e oriundas do mais elevado círculo do saber humano pois o evangelho não é uma verdade ao lado de outras verdades mas é a verdade que questiona todas as demais verdades. O evangelho é dobradiça e não folha de porta. 

Quem aceita o evangelho, embora possa sentir-se perplexo, está livre de toda e qualquer contenda; não há apologética nem preocupação com a vitória do evangelho, pois ele é a própria base de todas as coisas; o seu sustentáculo é também a sua consumação, o seu fim; e assim sendo, o evangelho é a vitória que vence o mundo.

O evangelho não precisa ser defendido nem suportado ou carregado: É ele que defende e suporta aos que o proclamam. [...] Deus não necessita de nós; de fato, se Ele não fosse Deus, Ele teria vergonha de nós. Nós, de qualquer modo, não podemos nos envergonhar Dele.

Já encontrei diversas interpretações deste texto, e de outras ocasiões em que Barth mais ou menos menosprezou a apologética: Barth estaria atacando tentativas modernas de construir (sob a influência maligna de Kant) uma teologia natural que ignora a Revelação; Barth estaria enfatizando a natureza totalmente única do evangelho em relação a outras "teorias ou pesquisas ou outras elucubrações e deduções" que existem no mundo; Barth estaria gentilmente sugerindo que apologistas sabichões moderassem seus inflamados temperamentos de donos da verdade, etc. Vou ignorar debates anteriores e oferecer alguns pensamentos a respeito dessa passagem, lida da maneira mais superficial e oportunista possível. Quero refletir especialmente a respeito do que podemos aprender com estas palavras sobre tentativas de defender uma perspectiva religiosa (seja defender a honra do profeta ou defender algum posicionamento bíblico) através do uso da violência.

1) A ideia de estabelecer a Revelação como o ponto inicial de toda a organização da sociedade, e da organização de todas as categorias de conhecimento, é tentadora mas imensamente problemática; e não apenas problemática para o descrente que vê esta possibilidade como uma distopia ruinosa, mas problemática também para o crente que ama a Deus e reverencia sua Revelação. Contemplemos a trajetória da teologia, que já foi universalmente reconhecida como a "rainha das ciências", e hoje é vista como a tia-avó excêntrica das ciências humanas. A teologia no auge de sua respeitabilidade, no tempo dos escolásticos, era o conhecimento que organizava e ordenava todos os outros conhecimentos; ela era o centro de um universo em expansão, e tudo o que era conhecido precisava submeter-se aos seus termos, precisava reduzir-se a uma proposição teológica. Isto nem sempre foi explicitamente afirmado, mas todos sabiam que ao afirmar que "fenômeno X resulta de causa Y", o que realmente estava sendo dito era, "Segundo a providência e sabedoria infinitas de Deus, aprouve a Ele que fenômeno X resultasse de causa Y".

Agora, este pensamento não está errado. De fato, um cristão poderia iniciar todas as suas frases com "Aprouve a Deus que...". O problema não está na proposição, e sim no consenso cultural que a tornou o subtexto de tudo o que era conhecido: a Revelação era a peça central de todo conhecimento humano. Até que... um dia ela não era mais. As ciências físicas amadureceram, o modelo do universo como máquina tomou ascensão, e a teologia foi suplantada como rainha das ciências. Tudo hoje é reduzido a termos físicos (todo mundo sabe, afinal, que o amor é só uma questão de hormônios e substâncias químicas pulsando no cérebro), e a revelação, antes tida como a peça central de todo o conhecimento humano, se encontrou na desconfortável posição de ser apenas mais uma peça - e ainda por cima uma peça tida por obsoleta e inadequada.

Nos encontramos com a difícil pergunta: a que mundo pertence a Revelação? Vemos a Revelação como a palavra inexaurível de um Deus inefável, como a impressão que Deus faz quando sua eternidade intersecta misteriosamente com uma realidade menor, limitada e imperfeita? Ou vemos a Revelação como mais uma peça na máquina do mundo, mais uma ideia competindo com todas as outras pelo lugar central? O problema de tornar a Revelação o ponto inicial da organização social/epistemológica é que isso a reduz a mais uma voz rouca no infame "livre mercado das ideias"; e isso justamente num contexto em que, como Marx observou, ideias, instituições e relações dissolvem e "tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado...". Reduzir a Revelação a apenas mais uma voz no mercado de ideias, a mais uma região entre milhares no mapa do conhecimento humano, é condenar este aspecto, esta compreensão da Revelação (mas nunca a Revelação em si, que afinal é eterna) a uma eventual obliteração nas mãos de outras ideias.

O pânico do fundamentalismo vem desta realização, vem de perceber que uma Revelação plenamente compreensível em termos racionais e plenamente inserida na máquina do mundo está condenada, eventualmente, a ser trocada por outras ideias que melhor apeteçam gerações futuras. Em muitos lugares o Islão, tendo através da imposição da Sharia imanentizado o seu eschaton (se fãs de Voegelin me perdoarem pelo abuso da expressão), tem como recompensa apenas o horror de vê-lo gradualmente apodrecer e ruir. Restam duas opções: complacência triste perante a substituição gradual de um querido avatar da Revelação na máquina do mundo, ou reação violenta contra um mundo que insiste em minar, por dentro e por fora, o sistema adorado. Minha previsão totalmente original, única, e certamente não reconhecida desesperadoramente por todos: cada vez mais apostasia e "blasfêmia contra o Profeta", e cada vez mais violência por parte de fiéis ultrajados.

2) O desespero acima mencionado é o que torna fúteis as tentativas de reduzir a violência religiosa por meio de lindos argumentos sobre como diferenças de pensamento precisam ser resolvidas por meio de discussão racional, e não com o auxílio de metralhadoras e bombas. A ideia que pareço ver em todas as direções (exceto a dos que optam pelas bombas e metralhadoras) é que defender a Deus, ou defender a honra do profeta, é em si uma atividade digna e honrável, mas que em nosso mundo limpinho e moderno o único combate aceitável é o embate racional de ideias. O que o mundo precisa, portanto, segundo esta perspectiva, é de mais apologética: seja da parte de muçulmanos buscando motivos razoáveis pelos quais pessoas não deveriam difamar o profeta, seja por parte de cristãos argumentando que o profeta não era lá flor que se cheire, seja por parte de ateus espertinhos resmungando que tudo não passa de uma grande bobagem.

Barth levanta, porém, um ponto interessante: que não é nosso lugar (e, de fato, é insolência de nossa parte) brincarmos de advogados de Deus, defensores da honra divina. Ontem citei a famosa frase de Sebastião Castellion: "Matar um homem não é defender uma doutrina; é matar um homem." Esta frase pode ser considerada um adendo ao famoso axioma de que os fins não justificam os meios: os fins não justificam os meios, e muitas vezes nem alcançamos o tão desejado fim, e o que resta são apenas os destroços ensaguentados dos meios abomináveis que usamos futilmente para alcançá-lo.

Mas e se o próprio fim que terroristas e apologistas buscam através de meios diferentes é, em si mesmo, errôneo? Talvez a discussão que precisamos ter hoje não tem a ver com que métodos são aceitáveis no combate de ideias, e sim se o conteúdo da Revelação é de fato algo que devemos (ou até mesmo podemos) convencer outras pessoas a aceitarem. O fim não justifica os meios, certo; mas os meios também não justificam o fim. O fato de que um debate ocorre de maneira civilizada e pacífica não é, em si mesmo, a prova de que esse debate é uma boa ideia. Não falarei por parte de qualquer tradição religiosa além da minha, mas ora vamos, meus irmãos protestantes: se existe um ponto teológico sobre o qual podemos entrar em acordo, é que a salvação vem pela graça somente. A potência salvadora do Evangelho não vem da persuasão de um pregador, ou de todos os lindos argumentos racionais que podemos enfileirar: vem do poder do Espírito Santo, operando sobre homens e mulheres que ouviram a proclamação da Palavra. Não digo que a apologética é inútil: ela é um exercício mental estimulante, e ela nos obriga a entender a quem estamos testemunhando. Mas a salvação não vem de nós, vem de Deus. A visitação do Espírito Santo, a iluminação, o derramar da graça: nada disso é obra humana. Nossa obrigação é anunciar o que nos foi revelado, é deixar claro o que temos recebido de Deus ("Quão formosos são os pés dos que anunciam as boas novas!"). Mas Deus defenderá a si mesmo. Ninguém é convencido a salvação através de argumentos. Da minha perspectiva crente carola, precisamos de menos bate-boca esquentado com ateus, muçulmanos e espíritas, e mais oração.

3) Barth foi incrivelmente perspicaz ao introduzir este comentário sob as palavras iniciais de Paulo, de não se ter vergonha do Evangelho. O uso da violência para a imposição de uma doutrina - ou até mesmo a tentativa frenética de utilizar argumentos para justificar racionalmente uma doutrina e provar que todas as outras estão erradas - é um sinal de medo, de vergonha, de uma suspeita vaga e funesta de que a Revelação não é verdadeira afinal. Para mim não há exemplo mais claro disto do que o épico teológico de John Milton, Paraíso Perdido. O poema que declara em seus primeiros versos ter como objetivo "Assert Eternal Providence/ And justify the ways of God to men" acaba por retratar um Deus arbitrário e um pouco vão. Milton não era, como William Blake impudentemente teorizou, um partidário inconsciente do Diabo; mas ele revelou sua própria falta de confiança na justiça de Deus no mesmo poema que buscou eliminar essa desconfiança em outros.

Quem me dera que todos os ansiosos seguissem seu exemplo e expressassem suas inseguranças em poesia. Mas a poesia, como o sabre de luz, é uma relíquia de uma era mais civilizada.